domingo, 25 de dezembro de 2011

SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.


(DRUMMOND)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Não é preciso ler manuais filosóficos ou de auto-ajuda pra saber que a felicidade é a meta diária e perene de todo homem, em qualquer canto do planeta (excluindo-se situações anômalas, de tipos que não estão no exercício da sanidade mental: depressivos, suicidas, fundamentalistas políticos e religiosos, etc.)

Assim como o gosto pelo conhecimento, na lição de Aristóteles (“todo homem tende por natureza ao saber”), tornar-se ou ser feliz é o interesse mais essencial da natureza humana. Porém, até hoje não se chegou a um consenso sobre o conceito de felicidade. Os homens comuns tratam de tentar vivê-la no dia a dia, enquanto os filósofos têm se esforçado pra defini-la, em vão até o momento, lançando sobre uma realidade escorregadia as redes dos conceitos e recolhendo-as vazias.

A noção de felicidade é a mesma pra todo mundo ou cada povo ou mesmo cada ser humano terá a sua? É um estado de espírito permanente ou uma soma de momentos pinçados da sucessão nem sempre feliz dos dias? Para muitos, a felicidade consiste em aproveitar a vida. Nada mais evidente. Porém, esse aproveitar a vida, em que consistiria? Não é difícil farejar a presença de um círculo vicioso. Outros dizem que é coisa que se possa sentir, mas não conceituar. O mais provável é que cada um tenha seu conceito pessoal de felicidade, forjado no lastro das experiências passadas e nas expectativas que tem para o futuro, enquanto, porém, é no presente que se dá toda possibilidade de viver ou ser feliz.

Cada qual com seu próprio conceito de felicidade, diferente de todos os outros, como impressões digitais da alma ou do espírito. O mundo gira e cada um vai tentando ser feliz com o que tem à mão, com as lembranças do que foi e teve, com os projetos e esperanças do que poderá vir a ser. Todo aquele que não se crê feliz, a fim de suportar-se existencialmente (ou seja, manter-se vivo), tem de esperar que um dia venha a ser, ou seja, a esperança é o refúgio que se tem pra enfrentar os assédios da infelicidade e buscar a vitória, uma vitória parcial, que precisamos renovar todo dia, deixando em suspenso na partitura do tempo a solução final.



domingo, 30 de outubro de 2011

o zero e o nada

                     O zero é o nada "positivado". O vazio mais absoluto, o nada por excelência é impossível de ser pensado ou imaginado. Ele foge aos padrões mentais aos quais o cérebro e a lógica humana tem acesso. O nada não existe, nem em símbolo. Este nada que se representa pelo zero é já um lugar no espaço, uma positivação do vazio.
... Posto que nosso fim era a linguagem,
e a linguagem desde sempre nos levara
a purificar o dialeto da tribo
e a instigar a mente para a antevisão
e a pós-visão, deixa-me revelar as dádivas
à velhice reservadas, para que seja
coroado o esforço de tua vida inteira...





(T. S. Eliot)
... Mas nós quando intentamos uma coisa, inteiramente,
sentimos já o custo de outra a desdobrar-se. Hostilidade
é o que nos está mais próximo. Não vão os amantes chocar-se
constantemente a limites, um no outro,
eles que se haviam prometido espaço, caça e pátria?!...



(Rilke)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

SITUAÇÃO DA LEITURA

Desde o surgimento da escrita (o primeiro alfabeto seria obra dos fenícios, no séc. XII ou XIII a. C.) até a invenção da imprensa e a expansão no número de alfabetizados (séculos XVI a XIX), ler e escrever foram atividades esotéricas, praticadas por muito poucos (escribas no Egito e Oriente antigos; monges copistas durante a idade média, etc.).


Apesar do aumento no número de leitores, especialmente nos séculos XIX e XX, a leitura nunca foi nem será um fenômeno de massas, mas a hipótese inversa, ou seja, a da falência da leitura, talvez até como entretenimento, parece não só possível como plausível e consentânea com o quadro de circunstâncias que podemos ver ao redor.


Supondo que o índice de leitores e o tipo de leitura estejam de algum modo relacionados com o estágio de desenvolvimento sócio-econômico de um país, como se costuma acreditar, tentemos esboçar um retrato da situação da leitura no Brasil, a partir de dois conceitos básicos:


Leitura: ato de ler um “clássico”.


Clássico: texto literário de alta qualidade ou valor estético, cuja leitura provoca a fruição de sentimentos associados à noção do belo, ou o assombro de uma estranheza, ou o deparar-se com um fenômeno único de sensibilidade.


Ou seja, deixaremos de lado todas as leituras e textos que não se incluem nas definições acima, da bula de remédios aos livros de conteúdo meramente técnico-científico, passando pela vasta gama que inclui esoterismos pós-modernos, auto-ajuda, revistas, jornais, panfletos, best-sellers, quadrinhos, psicografias espíritas, etc. etc...


(seria interessante conhecer os dados estatísticos das editoras, sobre quais os gêneros mais publicados e vendidos, mas creio que todos concordarão em que os clássicos não estão incluídos, com raras exceções).


De plano já poderíamos garantir que o leitor que procuramos, se existe no Brasil, por certo em número muito restrito, será naqueles centros – em geral capitais – onde ainda sobreviva alguma intelligentsia. Assim, poderíamos dar a busca por encerrada antes mesmo de começar. Deixemos de lado, apesar de aceitável, essa restrição de plano e sigamos, nem que seja por curiosidade.


Nosso ponto de partida é a hipótese de uma cidade mediana do Brasil, considerando-se como tal uma que represente um retrato médio dos agrupamentos humanos no horizonte das condições de vida brasileiras: nem pobre, nem rica; nem capital, nem provinciana/interiorana demais; nem muito industrializada, nem pouco...


Separemos de início os analfabetos e os semi-analfabetos, i.e., os analfabetos funcionais. Creio que não será exagero excluir 10% da população da nossa cidade fictícia.


Dos 90% restantes, vamos excluir crianças, adolescentes e jovens em geral, os dois últimos grupos por estarem demasiado envolvidos com inúmeros assuntos e interesses do mundo moderno, dos quais a leitura está longe de figurar e, caso figurasse, não sobraria tempo para ela. Teremos aqui de 20 a 30% da população. Fiquemos com 25%.


Dos 65% que ainda restam, vamos excluir a população operária, que dedica a um trabalho braçal estafante o melhor do seu esforço e as horas úteis do dia, de forma que não sobra vontade, ânimo ou tempo pra dedicar à leitura, no máximo a de jornais ou revistas e de forma seletiva, pinçando aqui e ali algum trecho, o que, de resto, se coaduna com esse gênero de texto. Nesse quesito, podemos excluir 20% da população.


Dos 45% restantes, teremos 10% de aposentados, 15% de desempregados, 15% de profissionais liberais, funcionários públicos, trabalhadores autônomos, etc. e ainda sobram 5%, que vamos enquadrar na categoria “outros”.


Da experiência comum que se tem dos aposentados, pode-se afirmar que talvez não se encontre entre eles o leitor que procuramos. É tão comum ver-se as pessoas de mais idade praticando atividades alheias à leitura e, quando se trata desta, vê-los restritos aos jornais, revistas, best-sellers, leituras leves em geral, de mero entretenimento, que somos tentados a acreditar que, talvez por já terem perdido as ilusões, a leitura parece que não passava de apenas mais uma delas.


Creio que os desempregados podem ser excluídos no todo, pois mesmo que algum fosse o leitor que procuramos, a situação de desemprego deve ser suficientemente alarmante para que não pense em outra coisa que não seja sair dela, mesmo que seja solteiro e tenha que cuidar apenas de si mesmo.


Os profissionais liberais e assemelhados, pela experiência de cada um de nós, seja por sermos um deles, seja pela observação empírica dos que o são, desenvolvem uma carreira exigente em termos de responsabilidade social e conhecimento (médicos, professores, advogados, etc.), devendo manter-se minimamente atualizados em sua respectiva especialidade e, portanto, é de supor que conseguirão ler algo não relacionado à profissão nas férias, feriados ou eventuais fins de semana e, nesse caso, será que haverão de procurar os “clássicos”?


Nossa busca talvez tivesse êxito na categoria “outros”, mas paramos por aqui, bruscamente, fatigados demais para tentar discernir os tipos sociais que a compõem e, se otimistas, ficamos na esperança de que ainda existem verdadeiros leitores; se pessimistas, na convicção de que a leitura mais exigente sumiu do mapa.

Vivi mais de quarenta anos e já devo conhecer algumas centenas de pessoas. De minha parte, posso garantir que ainda não conheci nenhum espécime dessa categoria de leitor almejada. Talvez não tenha procurado nos lugares certos, talvez ele seja como o unicórnio ou o pássaro extinto “dodô”, dos quais se diz que existem ou existiram, mas nunca ninguém viu.


“O mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem.” (SARTRE)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Muito texto, pouco sexo

Segundo uma pesquisa com 5.789 homens feita pela Universidade de Massachusetts, blogueiros, tuiteiros, redatores de publicidade, jornalistas e escritores fazem menos sexo do que outras pessoas. E quanto mais populares eles são, menos tendem a comparecer.
A explicação dos neurologistas é que, ao elaborar seus textos, esses profissionais esgotam uma área cerebral que cumpre um papel chave na hora das preliminares.

sexta-feira, 4 de março de 2011

curiosidades


DISTÂNCIA


De longe é bem mais fácil. Uma pesquisa divulgada na Inglaterra mostrou que 61% dos entrevistados - homens e mulheres - costumam escrever "eu te amo" nas mensagens enviadas aos seus parceiros e parceiras.  O índice despenca para 22% para a mesma frase, dita pessoalmente.


Fonte: Zero Hora.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Memórias de viagem (V)





                       V – NOVA YORK
                      
O JFK coalhado de aviões desfilava sob os olhares curiosos dos que chegavam e dos que partiam, num incessante sobe-e-desce de aviões de todos os cantos do planeta. O alívio por sobreviver a mais um pouso logo foi esquecido e os mais apressados não demoraram a levantar-se e precipitar-se pelos corredores, vestindo roupas pesadas, pois um frio cortante penetrava por frestas invisíveis. Com os tímpanos quase refeitos e uma bagagem de mão, segui a multidão no rumo da saída. Lá fora, enfim, Nova York à espera. Os poucos conhecidos do vôo foram se perdendo no burburinho e logo me vi novamente a sós comigo mesmo.
Fomos despejados do avião debaixo do sorriso protocolar da tripulação de bordo, para um estranho veículo - mistura de ônibus e salão de baile – que nos levou pela pista até um túnel sanfonado que desembocava em galerias fracamente iluminadas, por onde chegamos à alfândega. A multidão desordenada acabou numa fila indiana, sob os olhares atentos de policiais e funcionários do aeroporto. Lá na frente, sérios e elegantes fiscais aduaneiros examinavam passaportes e faziam perguntas. Um a um, fomos rapidamente interrogados e oficialmente autorizados a invadir a terra do “american way of life”.
No salão das esteiras rolantes, o rio das malas serpenteava sem parar. Encontrei minha bagagem e segui, por corredores quase vazios, até o ponto de embarque para o translado, onde se enfileiravam vários ônibus com placas de Nova Jersey. Quando me acomodei na poltrona, mergulhei num redemoinho de expectativas, algumas pouco nítidas. Ao meu redor, mulheres desconhecidas entre si começavam a conversar, como se fossem amigas de longa data, num colóquio de muitos sotaques, sobre passeios, compras planejadas, maridos e filhos no Brasil, etc. Alheio ao bate-papo frenético, eu tentava planejar o uso do tempo escasso da minha estada na cidade, acossado pela hipótese de ser, a qualquer momento, interpelado por uma das protagonistas do incansável debate. Enquanto isso, os últimos passageiros foram entrando: um casal em provável lua-de-mel, senhoras bem vestidas e perfumadas, famílias em festa e alvoroço...
A demora foi grande, justificada depois por um guia que chegou vermelho e esbaforido: havia passageiros em situação irregular ou passaportes falsos, algo do gênero. Assim que partimos, porém, o atraso foi esquecido pela distração das paisagens urbanas e pela retórica fluente do guia ao microfone que descrevia os atrativos da cidade e oferecia pacotes turísticos, num marketing que funcionava como semente em terra fértil, já que todos estavam interessados em planejar seus passeios e muitos as suas compras (Nova York se tornava um pólo de atração de “sacoleiros de colarinho branco”. Aos meus olhos isso enfraquecia um pouco a tradição e a aura mística da “big apple”).
Enquanto isso, o ônibus deslizava velozmente pelo Queens, favorecido por largas avenidas. A vastidão do aeroporto foi ficando pra trás, entregue à noite escura e fria. Ao longe, as promessas de Manhattan iam surgindo na forma de amontoados de luzes que pareciam pequenas galáxias luminosas rodopiando na escuridão, quando na verdade era apenas o ônibus e a nossa emoção que rodavam sem parar. À beira das avenidas, surgiam áreas residenciais, longos conjuntos de prédios iguais, padronizados, ou então casas com o mesmo desenho, que às vezes sumiam na distância ou no escuro de ruas pouco iluminadas. Depois, indústrias romperam na noite, cinzentas, as chaminés cuspindo grandes rolos de fumaça que sumiam nas alturas, após definharem em fiapos que dançavam na brisa.
O ônibus aquecido atravessava as geladas paredes da noite. Os olhos atônitos vasculhavam indecisos, querendo abarcar todos os cenários e personagens, registrar todos os ângulos. Talvez depois a mente conseguisse recuperar os quadros pouco visualizados, captados num registro subliminar. Enquanto os carros de passeio emparelhavam com o ônibus, eu ia observando as cenas no interior: casais taciturnos e calados, famílias saindo a passeio; uns cantarolando a música do rádio, outros discutindo calorosamente, a julgar pelos gestos e expressões... Centenas de pessoas que eu nunca ia conhecer nem ver de novo, tantos destinos entregues à sorte e se entrecruzando na noite, tudo isso mergulhou meu coração numa grande e vaga nostalgia.
O Queens terminou numa ponte metálica imponente. No alto desta, a maravilha, a apoteose: Manhattan explodindo em luzes, claridades, apelos difusos, até onde o olhar podia alcançar. A cidade era um mar de brilhos, luzes e cores, entregando-se, lasciva, espantando a noite para o alto e para longe e suspendendo seus poderes de aniquilamento. Todos se calaram, soterrados pelo espetáculo da vista. Só se ouvia o ronco do motor e a interminável palestra do guia.
Instantes depois, mergulhamos no coração de Nova York, ansiosos por desvendar seus mistérios (muitos na verdade só querendo desvendar os melhores preços e endereços para compras. Mas, não ousamos censurá-los. Afinal de contas, estávamos no “berço esplêndido” do capitalismo mais selvagem).

Nova Iorque

quarta-feira, 2 de março de 2011

Curiosas curiosidades

          Pesquisadores britânicos descobriram: quanto mais opções uma pessoa tiver para escolher um parceiro amoroso, maior a probabilidade de ficar sozinha.
          O estudo, publicado no jornal Biology Letters, conversou com 1.868 mulheres e 1.870 homens em 84 eventos de "speed-dating", que promovem encontros de casais de forma rápida.


Fonte: Zero Hora.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Memórias de viagem (IV)



IV - TEMPESTADE E BONANÇA


Vencidas as vastidões de mata e aguaceiros equatoriais da região amazônica e Guianas, o Atlântico foi um desafio difícil. Engolido por violentos temporais, neblina e turbulência, às vezes parecia que o avião ia ser quebrado ao meio. Os festejos da população a bordo silenciaram e tudo ficou em suspenso, esperando algum desfecho iminente.
Alguém teve a péssima idéia de mencionar a palavra “Bermudas” e lembrei na hora do malfadado “triângulo” e das histórias sobre sumiços misteriosos de aviões e navios na região, que até hoje ninguém soube explicar ou atreveu-se a afirmar que não passam de boatos. Pensei também na coragem dos primeiros navegadores que, sabe-se lá em que época perdida da história e com qual tipo de precária embarcação, enfrentaram o alto mar (o qual se acreditava, creio que até a Renascença, fosse habitado por monstros marinhos e tivesse fim num precipício sem fundo). Esses aventureiros deviam ter muito de loucos ou uma coragem incomum, somadas provavelmente a boa dose de ambição por algum ganho ou descoberta que a viagem pudesse envolver.
Quando o clima melhorou tivemos nossa recompensa: a vista inebriante de várias ilhas do Caribe banhadas pelos raios do sol. As estradas e rios eram como veias e artérias de um corpo ou linhas traçadas num papel amarrotado. Iates e veleiros atracados nas enseadas não passavam de pequenos pontos brancos. Camadas de nuvens logo abaixo de nós choviam miudamente sobre o solo provavelmente vulcânico das ilhas, e as manchas de sombra se projetavam movediças, ao sabor dos ventos.
Depois das Antilhas, a viagem ganhou em monotonia e o bom humor das primeiras horas foi sendo empurrado pra algum lugar cada vez mais fundo, deixando na superfície sinais de cansaço e impaciência. Entrementes, lá embaixo só mar e nuvens o tempo todo.
Nove horas depois do embarque, o avião começou a descer. Todos iam sentados e as luzes internas foram quase todas apagadas, mergulhando o ambiente numa penumbra carregada. Lá fora, a noite começava a cair. Os semblantes sérios e a pouca conversa denunciavam o cansaço da viagem e a ansiedade com a aterrissagem iminente. Me vi tentando entender como poderia chegar ao chão, sem problemas, todo aquele peso imenso do avião, passageiros e bagagens, flutuando no ar misteriosamente. A desaceleração e a gravidade me fizeram descobrir que tinha tímpanos e que eles estavam prontos pra estourar. Fui ficando surdo e passei a responder com acenos de cabeça. Reparava nos outros e via lábios se movendo, diálogos em andamento, mas não ouvia nada além do zumbido de descompressão que vazava pela fuselagem. Chegamos à hora em que a noite parecia ter ocupado a cena, mas as estrelas ainda se escondiam. O avião pairava próximo às águas escuras, até parecia que o pouso seria no mar. O silêncio só era quebrado pelo ruído da potência invertida das turbinas, segurando o avião quase parado no ar.
Depois de uma longa descida, finalmente vimos terra de novo, na forma de terrenos baldios à beira do mar, sem sinais de vida. As primeiras luzes do Queens acenaram seu brilho, enquanto baixamos à altura de empinar papagaios. De repente, luzes explodiram pra todos os lados, respingando de cores o lusco-fusco. Surgiram pistas de pouso, artefatos de aeroporto e o JFK nos acolheu em seu concreto rude, onde as rodas da aeronave bateram com violência. Aplausos irromperam a bordo, espontâneos, homenagem anônima ao pouso seguro e alívio de tensões mal disfarçadas.
Um céu noturno de névoa e frio nos espreitava em New York.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Há insônia




Insônia

A insônia deve ser tão antiga quanto a humanidade.  Não considero ousadia supor que o primeiro homem terá sido o primeiro insone. Provavelmente o problema começou no dia ou noite em que Adão teve roubada uma costela (sem pedido prévio ou agradecimento posterior) e, em troca, lhe foi dada uma companheira. Adão achou estranha a sonolência fora de hora, mas antes que pudesse gritar ou espernear já estava desacordado e, quando voltou a si, tinha uma costela a menos e uma habitante a mais no Paraíso. Este nunca mais foi o mesmo, nem o sono de Adão, ambos até então tranqüilos e literalmente paradisíacos.
Adão tinha a seu favor, pra voltar a conciliar o sono, os suaves coros dos anjos e as inauditas descobertas das carícias reconfortantes da mulher. O homem e a mulher modernos não contam com os primeiros, além de encontrarem muitas razões pra justificar uma noite mal dormida, o que faz da insônia um mal tão comum quanto é incômodo. Tanto que todo dia deparamos com algum receituário pra acabar com ela, nesses tempos de popularização da auto-ajuda e esoterismos de toda espécie. 
Muitos escritores e artistas souberam usar a insônia em seu proveito e algumas obras de arte certamente são o resultado de madrugadas em claro. Para a maioria, o problema se agrava como bola de neve, levando à depressão e outros males do gênero. Tirando as situações de desconforto material, um quarto ou cama inadequados, o estômago cheio e a digestão difícil, etc., em geral a insônia tem raízes psicológicas e ganha corpo na brecha que se abre na dicotomia relaxar x pensar. Quando você deita e não consegue limpar a cabeça de todo e qualquer pensamento, já está com um passo na insônia. O sono é atraído pelo “estado-mental-de-pensamento-zero”.
Talvez ajude o tradicional "contar carneirinhos" e suas variações: contar títulos de livros, nomes de autores, capitais, de A a Z, etc. De duas uma, ou você dorme ou acrescenta à insônia uma bela dor de cabeça. 


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Memórias de viagem (III)





                  


     III – A VIDA A BORDO

Éramos quase quatrocentos a bordo. Uma pequena horda. O avião sofreu um bocado pra subir e deixou todos apreensivos durante longos segundos em que manteve uma queda-de-braço contra um empuxo que queria mantê-lo no chão.
O meu assento era próximo às asas, onde demorei até acostumar com o barulho das turbinas. Ao fundo, na área reservada aos fumantes, logo formou-se um pequeno nevoeiro, que foi engrossando aos poucos e terminou pairando sobre todos, ameaçador, à mercê das correntes de ar internas.
A população a bordo era uma miscelânea de raças e sotaques, predominando paulistas e cariocas. Ao meu lado ia um casal de paulistas, econômico nas palavras e discreto no trato. A propósito, quase todos viajavam acompanhados. Os solitários estavam em franca desvantagem. O ambiente foi se tornando amistoso, por conta do ócio e das expectativas próprias das viagens de passeio, que afluíam nas conversas, nas rodas dos fumantes, no namoro dos casais e, de forma mais silenciosa, na leitura diletante de alguns e na concentração dos que ouviam música nos fones de ouvido. A vida a bordo foi germinando aos poucos e logo as pessoas iam e vinham às voltas com gracejos, planos, conversações animadas, num ritmo de indolente descompromisso, mas que era reverenciado como um verdadeiro ritual.
Pelo alto-falante, o comandante informou sonolentos dados sobre o avião, altitude, velocidade, temperatura, e depois, com freqüência pouco regular, foi anunciado a rota que seguíamos, aos pedaços, pinçando aqui e ali algum lugar ou acidente geográfico, manipulando os dados ao seu arbítrio, de forma a nos manter escassamente orientados. Nossas vidas, mais precárias do que nunca, estavam em suas mãos e nas invisíveis maquinações do computador de bordo.
As horas avançaram lentamente, assim como os cenários em terra: montanhas num trecho de Minas, o cerrado em Goiás, o cansativo e monótono verde da Amazônia, durante um longo tempo, esparramando-se como um tapete. O verde sufocante só era interrompido pelo curso sinuoso dos rios e por clareiras que pareciam cicatrizes da mata.
A certa altura, um grupo de curiosos se formou junto a uma janela dos corredores. Todos intrigados diante do encontro de dois rios lá embaixo. Havia uma nítida diferença de cor das águas e muitos achavam que fosse o começo do Amazonas, quando o barrento rio Negro encontra o límpido Solimões, ou o contrário. Nossas amadoras noções geográficas pouco ajudaram e resolvemos celebrar a dúvida bebendo umas cervejas. 
Os contatos que fiz no curso do vôo foram rápidos e superficiais, como convém quando se está entre perfeitos estranhos. Os raros solitários ficavam restritos ao círculo da própria individualidade, limitados ao campo dos deveres mínimos de urbanidade impostos pelo convívio forçado, aos cumprimentos meramente formais e frases pré-fabricadas pra uso em sociedade. 
Em todo caso, bem melhor do que a barbárie.

nota sobre a arte

          Muitas das obras ou instalações que abundam nas Bienais de arte pelo mundo, podem ser postas à conta de algo "sem pés nem cabeça". Assim também certo gênero de pintura dita "abstrata" que abarca composições obtidas de uma intervenção algo rústica do pintor frente à tela ou do artista com os materiais que usa, no caso da pintura não raro jogando e misturando tintas sem qualquer caminho racional aparente, muitas vezes usando os pés, as mãos, saliva e outras partes do corpo ou secreções menos publicáveis no processo criativo.
          A nós parece que tais “obras de arte” realizam o que o surrealismo preconizou como regra básica em literatura: o automatismo, ou seja, escrever o que viesse à cabeça, num fluxo contínuo, desencadeando assim, acreditava-se, mais as forças do subconsciente do que as da razão. Convenhamos em que esse tipo de manifestação, no âmbito das artes plásticas, pouco tem de "artístico" e muito de improvisação errante. Qualquer um que tenha à mão tela e tintas poderá produzir um resultado final muito semelhante.  
          Alguma coisa se perdeu pelo caminho. É bem provável que se chegou a esse ponto de classificar como arte tais produtos, por injunções políticas de academias, marchands, galerias de arte, ansiosos por novidades ou por inaugurar alguma vanguarda, talvez mais comumente nos períodos em que os movimentos artísticos chegavam a um nível de estagnação ou saturação.
          Em nossa modesta opinião, o valor artístico em pintura reside muito mais na chamada "arte figurativa", para cuja execução o pintor é obrigado a conhecer desenho e a dominar as técnicas inerentes à pintura. Aqui sim podemos apreender o domínio do gênio e não das forças automáticas ou irracionais da mente humana, as quais deveriam ficar restritas ao estudo da psicologia.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

MEMÓRIAS... (II)

Imagens de aviões


  II – NO AR
          
           
- O pior já passou... Agora é só aproveitar a paisagem - segredou minha vizinha de poltrona, sinceramente aliviada.
Aeromoças prestativas logo apareceram com o café-da-manhã. Abaixo de nós, bizarras formações de nuvens, cadeias de montanhas, a terra contorcendo-se, uma estrada sinuosa dependurada perigosamente na beira dos abismos. Por cima, a ameaça do espaço sideral e o sol brilhando, desmanchando o frio da fuselagem e os pensamentos a bordo. Em pouco tempo, a primeira visão do oceano. Do alto, a cor da água variava do verde claro ao azul.
- Estranho. Daqui de cima o mar parece imóvel - comentei, despretenciosamente. A mulher, emergindo distraída de uma leitura de viagem, acenou concordante e vaga:
- É mesmo!
As águas parecem descansar, represadas pelo traçado irregular da costa. A ilha de Santa Catarina, do tamanho de um mapa, coube na pequena janela do avião.
Depois de um tempo, o avião começou o caminho de volta à terra firme, enfrentando uma pesada atmosfera de chuva e nevoeiro. O chão só apareceu de novo quando estávamos muito baixos, revelando um emaranhado de áreas urbanas, largas rodovias, eventuais espaços verdes e terrenos baldios. A senhora ao meu lado anunciou, apontando pra baixo: “Guarulhos”.
O avião nos regurgitou sãos e salvos, na manhã cor de chumbo. Avançamos pelo aeroporto em grupos que iam se dispersando aos poucos, precariamente unidos por um resto de solidariedade que sobrava da convivência forçada durante o vôo. Coloquei minhas coisas num desses carrinhos de aeroporto, defeituoso de uma roda, e fui andando entre chiados e solavancos. Dei sinal de vida a meus pais, via telefone. Não pude deixar de notar alguma aflição neles pela minha sorte como “marinheiro de primeira viagem”. Depois, vaguei pelos corredores sem destino, até acabar numa livraria.
O torvelinho de sensações novas se misturava à expectativa do próximo vôo, provocando uma pequena vertigem. Tentei me refugiar junto aos livros, um terreno conhecido, mas não adiantou muito. A vertigem foi ficando mais nítida e pude notar que, além de estar me afastando do meu mundo habitual no espaço, alguma coisa também acontecia quanto ao tempo, a estranha sensação de que eu saía de uma dimensão e estava prestes a entrar em outra.
                       No horário previsto, levantamos vôo novamente, desta vez sem escalas, com destino a Nova York.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A VERDADE


"O que é a verdade?" A premente questão que Pilatos jogou na cara da humanidade e a posteridade tentou em vão responder, é a que mais assombra a filosofia, as ciências e os tratados metafísicos. A antiga definição “adaequatio intellectus et rei” (concordância de um conhecimento com o seu objeto) foi até hoje insuficiente para enfrentar as Grandes Verdades que mobilizam o nosso espanto.
A verdade científica é eterna refém da experiência e dos limites que esta possa alcançar. Como está sujeita aos contínuos avanços e recuos que as novas descobertas proporcionam, sempre será uma verdade provisória e, como tal, não satisfaz a ambição do homem pelo reino dos absolutos, que é onde ele entende que a verdade deva florescer com legitimidade.
A verdade histórica – se não for uma contradictio in termini (contradição dos termos) – é ainda mais precária. Sendo a história um registro factual dos acontecimentos que se sucedem no tempo, depende basicamente dos documentos que tenham sido poupados e chegaram até nós, ou do depoimento de testemunhas que presenciaram os fatos, ou deles ouviram falar. Nos dois casos, a precariedade é evidente. Os documentos escritos carregam aquilo que neles se quis colocar, com toda a parcialidade e carga ideológica que isso implica, geralmente trazendo a versão de um dos lados envolvidos, via de regra o vencedor. O depoimento testemunhal é a precariedade por excelência, a prostituta das provas, pois é a versão pessoal de alguém que presenciou o fato, ou que alega isso, dependendo da memória, do estado psicológico, dos interesses da testemunha, e de um sem-número de outros elementos aleatórios e demasiado subjetivos pra garantir um mínimo de confiabilidade.
A verdade é o que salta aos olhos ou tem de ser perseguida incansavelmente, muitas vezes desencaminhando o investigador com pistas falsas ou pegadas invertidas?  Têm de ser construída no des-velamento de algo escondido, ou está e sempre esteve por perto, bastando abrir a porta certa? A verdade é devir ou é desde sempre?
"Só Deus sabe o que se passa no coração do homem": aqui está o mais próximo que chegaremos da verdade. Rousseau foi o grande mestre do tema, ao deplorar a falta de transparência que havia no comércio entre os homens, a distância entre o sentimento e as aparências, ao constatar que a mentira e a hipocrisia governavam a vida em sociedade. O lamento de Rousseau por termos perdido a virtude de habitar ao lado dos deuses, quando estes liam nos corações dos homens, continuará através dos séculos e a única resposta será o silêncio das estrelas.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

MEMÓRIAS DE VIAGEM (1.995)

                                               PRÓLOGO

                Quando cheguei no aeroporto, o dia estava amanhecendo, vagarosamente e um pouco frio. Cruzei as portas automáticas meio cambaleante, por ter dormido pouco e acordado cedo e deparei com uma agitação de formigueiro: muitos transitando apressados, outros entediados pela espera, atropelo de bagagens, alto-falantes anunciando chegadas e partidas num timbre rançoso... 
                Despachei a bagagem e entrei na sala de espera. Isolados do mundo, dispersos em pequenos grupos, todos conversavam animados, enquanto a manhã esparramava luz no lado de fora. Além de mim, observei que poucos outros viajavam sozinhos e fiquei tentando entender o medo ancestral que o homem tem da solidão. As atitudes e posturas de cada um, diante dos outros ou de si mesmos, quando a sós por alguns momentos, por mais insignificantes que sejam, são sinais ou ecos da personalidade que sobem à superfície, às vezes de tão fundo que a origem é obscura até para si próprio. Se fosse isso mesmo, seria de crer que a vida em sociedade é uma constante fuga dos fantasmas da solidão, sem esquecer, porém, que a condição de solitário não depende de se estar ou não rodeado de pessoas.
                 Fui resgatado das divagações pelo burburinho que se formou quando as portas foram abertas e os mais ansiosos quase saíam correndo na direção do avião, um dinossauro de metal, imóvel, em cuja carcaça os raios do sol brincavam em ligeiras reverberações que feriam os olhos. Enquanto subia os degraus de acesso, as turbinas a jato me chamaram a atenção, talvez por nunca tê-las visto antes tão de perto. Por um momento, me pareceram objetos incômodos e pesados demais à estrutura magra das asas. Mas, num instante já havia esquecido disso, pois era o meu primeiro vôo e  tudo tinha um sabor de novidade.
                 Sentei ao lado de uma senhora que viajava a turismo e negócios, a qual, agarrando-se na poltrona com as duas mãos, enquanto o avião aquecia as turbinas e começava a taxear, não teve escrúpulos em revelar:
                 - Só tenho medo até o avião deixar o chão. Parece que ele não vai conseguir subir!
                 “Quem sabe o seu lugar seja o chão, e não o ar...” - pensei, enquanto a mulher continuava falando, agora com voz trêmula, pois o avião rolava ferozmente pela pista, afrontando o cimento com um impulso trovejante. Olhando pela janela fiquei espantado com a rapidez da subida e com a terra cada vez mais longe, numa pequenez de maquete.
                 Do alto, Porto Alegre estava cinza, nublada, e logo ficou para trás.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

nietzscheana

"Viver com uma imensa e orgulhosa calma; sempre além. - Ter e não ter espontaneamente nossos afetos, nosso pró e contra, condescender durante horas com eles; montá-los como cavalos, frequentemente como asnos: - precisamos saber utilizar sua estupidez tão bem como seu fogo. Conservar suas trezentas fachadas; e também os óculos escuros: pois existem casos em que ninguém nos deve olhar nos olhos, menos ainda no 'fundo'. E escolher como companhia esse vício velhaco e jovial, a cortesia. E continuar senhores de nossas quatro virtudes: coragem, perspicácia, simpatia, solidão. Pois a solidão é conosco uma virtude, enquanto sublime pendor e ímpeto para o asseio, que percebe como no contato entre as pessoas - "em sociedade" - as coisas se dão inevitavelmente sujas. Toda comunidade torna, de algum modo, alguma vez, em algum lugar - comum, vulgar."


"Há apenas pouca sorte em não ser amado; verdadeira infelicidade em não amar."




"... se há um pecado contra a vida, não é talvez tanto o desesperar dela, quanto o esperar uma outra vida, e assim furtar-se à implacável grandeza desta."



"Quando uma vez se teve a sorte de amar violentamente, passa-se a vida a procurar de novo esse ardor e essa luz."



(Camus)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

HAMLET:
"... quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
a prepotência do mando, e o achinchalhe
que o mérito paciente recebe dos inúteis,
podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,
gemendo e suando numa vida servil,
senão porque o terror de alguma coisa após a morte -
o país não descoberto, de cujos confins
jamais voltou nenhum viajante - nos confunde a vontade,
nos faz preferir e suportar os males que já temos,
a fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
refletidas demais, saem de seu caminho.
Perdem o nome de ação..."

(W. Shakespeare)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"Por que quero saber de onde venho e para onde vou, de onde vem e para onde vai o que me rodeia, e que significa tudo isso? Porque não quero morrer de todo, e quero saber se morrerei ou não definitivamente. Se não morro, que será de mim? E, se morro, já nada tem sentido. Há três soluções: a) ou sei que morro de todo, donde o desespero irremediável; b) ou sei que não morro de todo, donde a resignação; c) ou não posso saber nem uma coisa, nem outra, donde uma resignação desesperada, ou um desespero resignado, e a luta."

(MIGUEL DE UNAMUNO - Do Sentimento Trágico da Vida)

Pessoana

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Desenho de Almada Negreiros




"O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à ação, isto é, a vontade. Ora, há duas coisas que estorvam a ação - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a ação é, por sua natureza, a projeção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projeção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que não nos figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza pára. O homem de ação considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte - ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir, tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima..."

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A mídia zero ou Por que todas as queixas referentes à televisão são desprovidas de sentido


                          A televisão transforma todas as pessoas em imbecis - esta simples tese é a conclusão de todas as atuais teorias de mídia... a tese da manipulação aponta para a dimensão ideológica imputada aos canais de mídia. Ela vê neles principalmente instrumentos de domínio político e já tem uma considerável idade. Outrora profundamente enraizada nas tradições da esquerda, mas quando necessário também rapidamente adaptada pela direita, ela dirigiu sua inteira atenção aos conteúdos que, supostamente, determinam os programas dos principais canais de mídia. Sua crítica baseia-se em idéias de propaganda e agitação vindas de tempos antigos. O canal de mídia é compreendido como sendo um condutor neutro, que despeja opiniões sobre um público considerado passivo. Dependendo da posição do crítico, essas opiniões são consideradas erradas; segundo tal modelo de causa e efeito, elas teriam forçosamente de produzir uma falsa conscientização... o consumidor desavisado é conquistado pelos que manobram os fios, sem sequer compreender o que está acontecendo com ele... todas as teorias convergem para a tese da imbecilidade, que se condensa numa declaração antropólogica. Segundo ela, a mídia ataca não apenas a capacidade de criticar e diferenciar e a fibra moral e política dos seus usuários, como também sua capacidade básica de percepção, até mesmo sua identidade física... nenhuma dessas teorias chega a ser muito convincente. Seus autores acham que as provas são supérfluas; eles não se preocupam sequer com um critério mínimo de plausibilidade... basicamente, o usuário da mídia aparece como uma vítima indefesa e, por outro lado, aos produtores dos programas sempre cabem os papéis dos vilões... E o espectador! Ele sabe exatamente no que está se envolvendo. Ele é impermeável a qualquer iilusão de programa. Longe de permitir que seja manipulado (educado, informado, esclarecido, advertido), é ele quem manipula a mídia para implementar seus próprios desejos... para o espectador é bastante claro que ele não está com um meio de comunicação, mas sim com um meio para a recusa de comunicação, e ele não permite que qualquer coisa perturbe essa sua convicção... O espectador liga o aparelho para se desligar (aliás, por esse motivo, aquilo que os políticos consideram como sendo a política é absolutamente inapropriado para a televisão. Se bem que o lamentável ministro imagine estar influenciando as opiniões e ações do espectador, o viscoso vazio de suas declarações serve apenas para satisfazer a necessidade que o público tem de ficar longe de qualquer tipo de significado)... a televisão é empregada primeiramente como um método bem definido de agradável lavagem cerebral; ela serve como higiene pessoal, como automedicação.. seria absurdo questionar sua necessidade social. Qualquer um que queira aboli-la faria bem em examinar atentamente as alternativas disponíveis. Em primeiro lugar, é preciso considerar o consumo de drogas, da pílula de dormir à cocaína, do álcool aos beta-bloqueadores, dos tranquilizantes à heróina...



(Hans Magnus Enzensberger)


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

porvir da ignorância





mais um "fragmento" do bom e velho Sábato


"...o desenvolvimento dessas distintas fases da atividade humana foi obrigando à especialização... o estudo da física, tão-só, leva hoje toda uma vida... como aprender tudo o que a química, a biologia, a história, a filosofia e a filologia fizeram por seu lado? E, sobretudo, quem será capaz de realizar a síntese deste mundo quase infinito? Aos homens de espírito universal só lhes resta o recurso da melancolia... as ciências chegaram a um grau de desenvolvimento tal que um homem está condenado a se especializar, se quer chegar até a frente de batalha onde se luta com o desconhecido... certos otimistas supõem que a filosofia pode prescindir da ciência, o que me parece uma curiosa forma de ocupar-se com a universalidade... Descartes e Leibniz ainda foram espíritos universais, mas a partir deles começa o êxodo das ciências particulares... Não se pense que esse é um ataque aos filósofos: é um ataque à ingênua idéia de se poder ocupar do universal prescindindo do particular. O reverso dessa ingenuidade é a dos homens de ciência, que julgam poder se ocupar do particular prescindindo do geral: é a ingenuidade dos especialistas... o afã de conhecimento desencadeia uma nova espécie de Caos. Saímos da ignorância e chegamos assim novamente à ignorância, uma ignorância mais rica, mais complexa, feita de pequenas e infinitas sabedorias... a ciência continuou avançando, e com ela a ignorância. Cada avanço na ciência ou na filosofia significou uma nova ignorância que se incorpora ao espírito dos profanos... E então sentimos que o desconhecimento e o desconceto nos invadem por todos os lados e que a ignorância avança rumo a um imenso e terrível porvir."

domingo, 2 de janeiro de 2011

Fascismo


"... a memória individual pode ser boa ou má; mas a memória coletiva é má. Recordemos, pois, que muitos estadistas ingleses elogiaram Mussolini assim como o senhor Emil Ludwig, diga-se de passagem; o rearmamento alemão foi facilitado por financistas ingleses, franceses e norte-americanos; até Pearl Harbor, os empresários dos Estados Unidos venderam petróleo e aço ao império japonês; durante a mesma guerra a Standard Oil de Nova Jersey vendeu ao monopólio químico alemão a fórmula que reduzia à metade o custo da borracha sintética, enquanto a negava ao seu próprio governo; estadistas da Inglaterra, França e Estados Unidos deixaram que os fascistas italianos e os nazistas alemães fizessem e desfizessem na Espanha; essas mesmas pessoas, enfim, facilitaram a destruição da infortunada Tcheco-Eslováquia e se apressaram a entregar aos alemães o ouro que essa nação guardava no banco internacional.  Todos esses fatos revelam que, enquanto o nazismo não foi uma ameaça contra alguns impérios, contou com o apoio entusiasta de muitos banqueiros e estadistas não-alemães. Não se trata aqui de uma teoria, mas de um conjunto de fatos;..."

(Ernesto Sábato)