PRÓLOGO
Quando cheguei no aeroporto, o dia estava amanhecendo, vagarosamente e um pouco frio. Cruzei as portas automáticas meio cambaleante, por ter dormido pouco e acordado cedo e deparei com uma agitação de formigueiro: muitos transitando apressados, outros entediados pela espera, atropelo de bagagens, alto-falantes anunciando chegadas e partidas num timbre rançoso...
Despachei a bagagem e entrei na sala de espera. Isolados do mundo, dispersos em pequenos grupos, todos conversavam animados, enquanto a manhã esparramava luz no lado de fora. Além de mim, observei que poucos outros viajavam sozinhos e fiquei tentando entender o medo ancestral que o homem tem da solidão. As atitudes e posturas de cada um, diante dos outros ou de si mesmos, quando a sós por alguns momentos, por mais insignificantes que sejam, são sinais ou ecos da personalidade que sobem à superfície, às vezes de tão fundo que a origem é obscura até para si próprio. Se fosse isso mesmo, seria de crer que a vida em sociedade é uma constante fuga dos fantasmas da solidão, sem esquecer, porém, que a condição de solitário não depende de se estar ou não rodeado de pessoas.
Fui resgatado das divagações pelo burburinho que se formou quando as portas foram abertas e os mais ansiosos quase saíam correndo na direção do avião, um dinossauro de metal, imóvel, em cuja carcaça os raios do sol brincavam em ligeiras reverberações que feriam os olhos. Enquanto subia os degraus de acesso, as turbinas a jato me chamaram a atenção, talvez por nunca tê-las visto antes tão de perto. Por um momento, me pareceram objetos incômodos e pesados demais à estrutura magra das asas. Mas, num instante já havia esquecido disso, pois era o meu primeiro vôo e tudo tinha um sabor de novidade.
Sentei ao lado de uma senhora que viajava a turismo e negócios, a qual, agarrando-se na poltrona com as duas mãos, enquanto o avião aquecia as turbinas e começava a taxear, não teve escrúpulos em revelar:
- Só tenho medo até o avião deixar o chão. Parece que ele não vai conseguir subir!
“Quem sabe o seu lugar seja o chão, e não o ar...” - pensei, enquanto a mulher continuava falando, agora com voz trêmula, pois o avião rolava ferozmente pela pista, afrontando o cimento com um impulso trovejante. Olhando pela janela fiquei espantado com a rapidez da subida e com a terra cada vez mais longe, numa pequenez de maquete.
Do alto, Porto Alegre estava cinza, nublada, e logo ficou para trás.
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