sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A mídia zero ou Por que todas as queixas referentes à televisão são desprovidas de sentido


                          A televisão transforma todas as pessoas em imbecis - esta simples tese é a conclusão de todas as atuais teorias de mídia... a tese da manipulação aponta para a dimensão ideológica imputada aos canais de mídia. Ela vê neles principalmente instrumentos de domínio político e já tem uma considerável idade. Outrora profundamente enraizada nas tradições da esquerda, mas quando necessário também rapidamente adaptada pela direita, ela dirigiu sua inteira atenção aos conteúdos que, supostamente, determinam os programas dos principais canais de mídia. Sua crítica baseia-se em idéias de propaganda e agitação vindas de tempos antigos. O canal de mídia é compreendido como sendo um condutor neutro, que despeja opiniões sobre um público considerado passivo. Dependendo da posição do crítico, essas opiniões são consideradas erradas; segundo tal modelo de causa e efeito, elas teriam forçosamente de produzir uma falsa conscientização... o consumidor desavisado é conquistado pelos que manobram os fios, sem sequer compreender o que está acontecendo com ele... todas as teorias convergem para a tese da imbecilidade, que se condensa numa declaração antropólogica. Segundo ela, a mídia ataca não apenas a capacidade de criticar e diferenciar e a fibra moral e política dos seus usuários, como também sua capacidade básica de percepção, até mesmo sua identidade física... nenhuma dessas teorias chega a ser muito convincente. Seus autores acham que as provas são supérfluas; eles não se preocupam sequer com um critério mínimo de plausibilidade... basicamente, o usuário da mídia aparece como uma vítima indefesa e, por outro lado, aos produtores dos programas sempre cabem os papéis dos vilões... E o espectador! Ele sabe exatamente no que está se envolvendo. Ele é impermeável a qualquer iilusão de programa. Longe de permitir que seja manipulado (educado, informado, esclarecido, advertido), é ele quem manipula a mídia para implementar seus próprios desejos... para o espectador é bastante claro que ele não está com um meio de comunicação, mas sim com um meio para a recusa de comunicação, e ele não permite que qualquer coisa perturbe essa sua convicção... O espectador liga o aparelho para se desligar (aliás, por esse motivo, aquilo que os políticos consideram como sendo a política é absolutamente inapropriado para a televisão. Se bem que o lamentável ministro imagine estar influenciando as opiniões e ações do espectador, o viscoso vazio de suas declarações serve apenas para satisfazer a necessidade que o público tem de ficar longe de qualquer tipo de significado)... a televisão é empregada primeiramente como um método bem definido de agradável lavagem cerebral; ela serve como higiene pessoal, como automedicação.. seria absurdo questionar sua necessidade social. Qualquer um que queira aboli-la faria bem em examinar atentamente as alternativas disponíveis. Em primeiro lugar, é preciso considerar o consumo de drogas, da pílula de dormir à cocaína, do álcool aos beta-bloqueadores, dos tranquilizantes à heróina...



(Hans Magnus Enzensberger)


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

porvir da ignorância





mais um "fragmento" do bom e velho Sábato


"...o desenvolvimento dessas distintas fases da atividade humana foi obrigando à especialização... o estudo da física, tão-só, leva hoje toda uma vida... como aprender tudo o que a química, a biologia, a história, a filosofia e a filologia fizeram por seu lado? E, sobretudo, quem será capaz de realizar a síntese deste mundo quase infinito? Aos homens de espírito universal só lhes resta o recurso da melancolia... as ciências chegaram a um grau de desenvolvimento tal que um homem está condenado a se especializar, se quer chegar até a frente de batalha onde se luta com o desconhecido... certos otimistas supõem que a filosofia pode prescindir da ciência, o que me parece uma curiosa forma de ocupar-se com a universalidade... Descartes e Leibniz ainda foram espíritos universais, mas a partir deles começa o êxodo das ciências particulares... Não se pense que esse é um ataque aos filósofos: é um ataque à ingênua idéia de se poder ocupar do universal prescindindo do particular. O reverso dessa ingenuidade é a dos homens de ciência, que julgam poder se ocupar do particular prescindindo do geral: é a ingenuidade dos especialistas... o afã de conhecimento desencadeia uma nova espécie de Caos. Saímos da ignorância e chegamos assim novamente à ignorância, uma ignorância mais rica, mais complexa, feita de pequenas e infinitas sabedorias... a ciência continuou avançando, e com ela a ignorância. Cada avanço na ciência ou na filosofia significou uma nova ignorância que se incorpora ao espírito dos profanos... E então sentimos que o desconhecimento e o desconceto nos invadem por todos os lados e que a ignorância avança rumo a um imenso e terrível porvir."

domingo, 2 de janeiro de 2011

Fascismo


"... a memória individual pode ser boa ou má; mas a memória coletiva é má. Recordemos, pois, que muitos estadistas ingleses elogiaram Mussolini assim como o senhor Emil Ludwig, diga-se de passagem; o rearmamento alemão foi facilitado por financistas ingleses, franceses e norte-americanos; até Pearl Harbor, os empresários dos Estados Unidos venderam petróleo e aço ao império japonês; durante a mesma guerra a Standard Oil de Nova Jersey vendeu ao monopólio químico alemão a fórmula que reduzia à metade o custo da borracha sintética, enquanto a negava ao seu próprio governo; estadistas da Inglaterra, França e Estados Unidos deixaram que os fascistas italianos e os nazistas alemães fizessem e desfizessem na Espanha; essas mesmas pessoas, enfim, facilitaram a destruição da infortunada Tcheco-Eslováquia e se apressaram a entregar aos alemães o ouro que essa nação guardava no banco internacional.  Todos esses fatos revelam que, enquanto o nazismo não foi uma ameaça contra alguns impérios, contou com o apoio entusiasta de muitos banqueiros e estadistas não-alemães. Não se trata aqui de uma teoria, mas de um conjunto de fatos;..."

(Ernesto Sábato)