sexta-feira, 30 de março de 2012


"Eu me revolto, logo existimos", dizia o escravo. A revolta metafísica acrescentava então o "estamos sós" em que ainda vivemos atualmente. Mas se estamos sós sob o céu vazio, se portanto é preciso morrer para sempre, como podemos realmente existir? A revolta metafísica tentava então realizar o ser com o parecer. Em seguida, os pensamentos puramente históricos vieram dizer que ser era agir. Nós não éramos, mas por todos os meios devíamos ser. Nossa revolução é uma tentativa de conquistar um novo ser pela ação, fora de qualquer regra moral. É por isso que ela está condenada a só viver para a história, e no terror. O homem, segundo a revolução, não é nada se não obtém na história, por bem ou por mal, o consentimento unânime. Neste ponto preciso, o limite é ultrapassado, a revolta é inicialmente traída e, em seguida, logicamente assassinada, pois ela nunca deixou de afirmar, em seu movimento mais puro, a existência de um limite e o ser dividido que somos: ela não se acha na origem da negação total de todo ser. Pelo contrário, ela diz simultaneamente sim e não. Ela é a recusa de uma parte da existência em nome de outra parte que ela exalta. Quanto mais profunda é a exaltação, tanto mais implacável é a recusa. Em seguida, quando, na vertigem e na fúria, a revolta passa ao tudo ou nada, à negação de todo ser e de toda natureza humana, é neste ponto que ela se renega. Somente a negação total justifica o projeto de uma totalidade a ser conquistada. Mas a afirmação de um limite, de uma dignidade e de uma beleza comuns a todos os homens só acarreta a necessidade de estender esse valor a todos e a tudo e marchar para a unidade sem renegar suas origens. Neste sentido, a revolta, em sua autenticidade primeira, não justifica nenhum pensamente puramente histórico. A reivindicação da revolta é a unidade, a reivindicação da revolução histórica, a totalidade. A primeira parte do não apoiado em um sim, a segunda parte da negação absoluta, condenando-se a todas as servidões par fabricar um sim adiado para o fim dos tempos. Uma é criadora, a outra, niilista. A primeira está fadada a criar a fim de existir cada vez mais; a segunda é forçada a produzir para negar cada vez melhor...

consideremos que ao "Eu me revolto, logo existimos", ao "Nós estamos sós" da revolta metafísica, a revolta em conflito com a história acrescenta que, em vez de matar e morrer para produzir o ser que não somos, temos que viver e deixar viver para criar o que somos.



A. CAMUS (O Homem Revoltado).

quarta-feira, 28 de março de 2012

A coisa mais comum do mundo é confundir convivência com amizade.



Todo mundo tem uma porção de amigos que detesta e um ou outro inimigo de que gosta.



Não sei por que o governo faz tanta questão de impor censura, não sei por que a maior parte dos intelectuais luta tanto pela abolição da censura. Em nossos pequenos períodos de liberdade o que se percebe é que quase ninguém tem nada a dizer, ou prefere não dizer ou, mais comumente, só deseja mesmo dizer coisas deliciosamente favoráveis.



Uma dessas cidades tão pacatas que nem tem lugares que não devam ser frequentados.



Casado, bom pai, trabalhador, cumpridor de seus deveres, tem todos os defeitos que impedem a boemia.



A situação está insustentável. Por isso temos que tirar satisfação das coisas mais triviais. Por exemplo - nestes dias de calor violento nunca deixe de botar o papel higiênico no freezer.



MILLÔR FERNANDES (1924 - 27/03/2012)

terça-feira, 27 de março de 2012

ANJOS

A sequência histórica de religiões ocidentais - zoroastrismo, judaísmo, cristianismo, Islã - não soube contar a história de suas verdades sem intercessões angélicas, nem há grande tradição religiosa, oriental ou ocidental, que não dependa de anjos. A vida espiritual, expressa no culto ou na prece, na contemplação privada ou nas artes, precisa de alguma espécie de visão de anjos...

Santo Agostinho, a maior de todas as autoridades cristãs, disse que não sabíamos se os anjos tinham corpos materiais... Pode-se tomar São Tomás de Aquino como representante da posição escolástica católica de que os anjos são puramente espirituais, enquanto o poeta John Milton pode representar os humanistas e protestantes que insistiram em que todos os seres reais devem ser corporificados... os anjos bons de Milton são também heréticos no se manterem por sua própria força, não pela de Deus... o mais extraordinário retrato de qualquer anjo que temos ou teremos é o do Satanás de Milton, que usa sua liberdade para danar-se titanicamente...




H. BLOOM


... o segundo choque da obviedade sobrevém a muitos que se encontram em condições iguais às minhas, ou seja, que possuem em casa uma bliblioteca de certas dimensões - de tal maneira que, entrando em nossa casa, as pessoas não tenham como deixar de notá-la, inclusive porque nossa casa não contém muitas outras coisas. O visitante entra e diz: "Quantos livros! Já leu todos?" No início eu achava que esta frase só fosse pronunciada por pessoas de escassa intimidade com o livro, acostumadas a ver apenas estantezinhas com cinco livros policiais e mais uma enciclopédia infantil em fascículos. Mas a experiência me ensinou que também é pronunciada pelas pessoas mais inesperadas. Pode-se dizer que se trata quase sempre de pessoas que concebem as estantes como mero depósito de livros lidos e não a biblioteca como instrumento de trabalho, mas isto não bastaria. Estou convencido de que, quando se vê diante de muitos livros, qualquer pessoa é tomada pela angústia do conhecimento, e fatalmente resvala para a pergunta que exprime seu tormento e seus remorsos... é preciso dar uma resposta à pergunta sobre os livros, enquanto o maxilar se enrijece e filetes de suor gelado escorrem ao longo da coluna vertebral. Durante algum tempo adotei uma resposta desdenhosa: "não li nenhum deles; senão, por que estariam aqui?"... ultimamente, eu me inclino por outra afirmação: "Não, estes são os que preciso ler durante o próximo mês, os outros eu guardo na universidade", resposta que por um lado sugere uma sublime estratégia ergonômica e, por outro, induz o visitante a antecipar o momento da despedida.


U. ECO

segunda-feira, 26 de março de 2012

A Bíblia nos ensina a amar o próximo e também os nossos inimigos. Talvez porque sejam as mesmas pessoas.


G. K. CHESTERTON
É perigoso ter razão em assuntos sobre os quais as autoridades estabelecidas estão erradas.



VOLTAIRE

domingo, 25 de março de 2012


...fui capaz, no espaço de dois anos (embora confesse que com a maior dificuldade), de remover o hábito infernal de mentir, trapacear, enganar e prevaricar, tão profundamente enraizado nas próprias almas de todos os da minha espécie, principalmente os europeus...


J. SWIFT