sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

o mar e as sereias

Asian Woman Posing In Sea



               A proximidade do mar, pra quem vive longe dele corriqueiramente, remexe no fundo da alma uma variedade de sensações prazeirosas. A brisa marinha, o cheiro da maresia, o contato refrescante do corpo com a água salgada, o mergulho e suas possibilidades de sufocação e espanto, tudo nos transporta e remete a um universo estranho, mas, ao mesmo tempo, decididamente próximo, a lembranças nem conhecidas ou simplesmente esquecidas no fundo da gaveta que, subitamente, espocam dentro de nós, como se ali estivessem desde sempre. A visão do mar resgata a memória genética incorporada ao nosso sangue desde o início das eras e transmitida de geração em geração no lento curso dos milênios, comprovando que a vida começou na água. O apelo do mar atua sobre os homens com uma força de atração irresistível, descrita adequadamente por Melville no primeiro capítulo de Moby Dick.
               Ver o mar não é simplesmente um ato a mais a quebrar a cotidianidade, por muitos adiado ou nunca realizado durante toda a vida, é um compromisso existencial conosco mesmos, um retorno obrigatório, quanto mais habitual melhor, a uma instância do ser que evoca nosso princípio e talvez nossa finitude, se estivermos dispostos a encarar sob esse prisma, que seria existencialmente autêntico, embora para muitos deprimente ou demasiado pessimista.
              O convite do mar se oferece a todos, tão democrático quanto sedutor, tão sedutor quanto o canto das sereias que o povoam. Aceder a ele nos conduzirá por um caminho onde estarão misturados o profano e o sagrado, e possivelmente sairemos da experiência enriquecidos e fortalecidos. 
             
Girl Floating At The Dead Sea

§ 3º

"O 'talento' é o meio mais seguro de falsear tudo, de deformar as coisas e de equivocar-se quanto a si mesmo.  Só possuem uma existência verdadeira aqueles a quem a natureza não sobrecarregou com nenhum dom.  Por isso será difícil imaginar universo mais falso que o universo literário, ou homem mais desprovido de realidade que o homem de letras."

(E.Cioran)




R. M. Rilke








"... Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como somente outrora
santos ouviam, de tal forma que o apelo imenso
os erguia do solo; eles, porém, impossíveis,
continuavam de joelhos e nem o atendiam:
de tal maneira ouviam. Não que tu, nem de longe, suportasses
a voz de Deus. Mas ouve o hálito,
a mensagem sem fim, que se forma de silêncio.
Um rumor rola agora daqueles mortos jovens para ti...
Que querem eles de mim? Que afaste baixinho
o véu de injustiça que, por vezes, impede um pouco
o movimento puro de seus espíritos.


É estranho, decerto, não morar mais a Terra,
não mais praticar atos apenas adquiridos,
às rosas, e a outras coisas tão prometedoras,
não mais dar o sentido dum futuro humano;
aquilo que fomos em mãos infinitamente tímidas
não mais ser, e abandonar até o próprio nome
como um brinquedo partido.
Estranho, não continuar a desejar os desejos. Estranho,
ver voar solto pelo espaço o que estava
em relação. E o estar-morto é custoso,
e há tanto a recuperar, até gradualmente se sentir
um pouco de Eternidade. - Mas os vivos cometem
todos o erro de distinguir demais.
Os anjos (diz-se) não sabem muitas vezes se andam
entre vivos ou entre mortos. A corrente eterna
arrasta pelos dois reinos todas as idades
sempre consigo, e em ambos as domina com sua voz potente.


Afinal já não nos precisam, os de morte precoce;
suavemente nos vamos desacostumando do que é terreno, como nos alheamos
brandamente dos seios maternos. Mas nós, que precisamos
tão grandes mistérios, para quem do luto tantas vezes
nasce progresso feliz - : poderíamos nós ser sem eles?
Será vã a lenda de que outrora, ao chorar Linos,
música primordial ousada repassou o torpor árido?,
de tal forma que só no espaço assustado, de que de repente partiu
um jovem quase divino, é que o vácuo entrou nessa vibração
que agora nos arrasta e consola e ajuda."

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

§ 2º



"O Mississipi é rio de peito largo - um vasto e escuro irmão do Paraná, do Uruguai, do Amazonas e do Orinoco. É um rio de águas mulatas: mais de quatrocentos milhões de toneladas de lama insultam anualmente o golfo do México, lançadas por ele. Tanto lixo antigo e venerável construiu um delta em que gigantescos ciprestes dos pântanos crescem dos resíduos de um continente em dissolução perpétua e no qual labirintos de barro, de peixes mortos e de juncos alongam as fronteiras e a paz de seu fétido império. Mais acima, à altura de Arkansas e de Ohio, estendem-se terras também baixas. São habitadas por uma espécie amarelenta de homens esquálidos, propensos à febre, que olham as pedras e o ferro com avidez, pois entre eles não existe nada mais além de areia, lenha e água turva."

(JORGE LUIS BORGES - História Universal da Infâmia)

§ 1º





"Suficientemente ingênuo para colocar-me em busca da Verdade, interessei-me no passado - inutilmente - por muitas disciplinas. Começava a firmar-me no ceticismo quando tive a idéia de consultar, como último recurso, a Poesia: quem sabe, disse a mim mesmo, talvez me seja útil, talvez esconda sob sua arbitrariedade alguma revelação definitiva. Recurso ilusório: ela me fez perder até minhas incertezas..."

(EMILE M. CIORAN - Silogismos da Amargura)



 

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Heidegger

               Aos interessados em filosofia e Heidegger, em especial:

              fascinante a leitura do pequeno volume intitulado Heidegger de G. Steiner, sobretudo como texto introdutório à obra do filósofo que dá título ao livro.  Digo isso com a experiência de quem já tentou avançar pela selva linguístico-filosófica de Ser e Tempo (Sein und Zeit) e terminou perdido. Steiner enfatiza que há duas correntes interpretativas da obra do filósofo da Floresta Negra: uma que o considera o maior do século XX, à altura de Platão, Aristóteles, Kant e poucos outros e até superior a todos eles, na medida em que propõe o retorno à questão essencial, da qual derivam todas as outras, mas que caiu no esquecimento praticamente desde o início, posto que poucos dela lembraram depois de Heráclito, e quando o fizeram foi de modo superficial e tangenciador: a questão do Ser; a outra corrente o considera um charlatão, um prestidigitador especializado em formular questões sem fundamento lógico, em amontoar neologismos que não levam a lugar nenhum.
               A apreciação crítica de Steiner convence o leitor acerca da genialidade de Heidegger e da urgência de retornar à leitura da sua obra e ao inerente esforço interpretativo. O homem, na qualidade de presença (Da-Sein), ser-aí, é o ente privilegiado para o acesso ao Ser, enquanto examinado na quotidianidade de suas vivências na mundanidade do mundo. O homem como manejador dos utensílios que lhe são colocados à mão, criações de um mundo que se afastou da con-vivência saúdavel com a natureza e, dominando-a, através dos instrumentos forjados pela técnica, a partir da lógica implacável que vem de Aristóteles (a natureza e o conhecimento dissecados e etiquetados em categorias) e passa por Descartes (o pensamento lógico como condição e caminho da razão). O homem como pastor do ser, na medida em que é o único ente dotado de razão discursiva (logos/leghein), de linguagem, a clareira onde poderá eclodir o Ser, mediado pelos pensadores e especialmente pelos poetas. Heidegger dedica suas últimas obras a um esforço interpretativo da obra dos grandes poetas, especialmente Hölderlin, considerando a poesia como o horizonte de possibilidade de acesso ao ser.
               Steiner esmiuça os pontos principais da obra de Heidegger e funciona como um saboroso aperitivo pra quem pretenda depois banquetear-se com a mesma, o extenso, intrincado, genial, revolucionário prato principal.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A ORIGEM DO HOMEM (Antropologia Amadora Elementar)


Um dos mais antigos mistérios da humanidade é o da sua origem. Existem, basicamente, duas hipóteses explicativas principais: a bíblica, segundo a qual o homem foi criado do barro, ao qual Deus “animou” com seu sopro divino; e a evolutiva, pela qual o homem descende do macaco, de alguma espécie de primata ancestral e pré-histórico, uma ramificação que teria evoluído de forma diversa das demais, a partir de um tronco comum que incluiria todas as espécies de macacos remanescentes nos dias de hoje. A hipótese bíblica é tida como um relato metafórico, indireto ou poético e a referência ao aspecto estético, à suposta beleza, ainda que simplória, do texto, acaba sendo um reducionismo de vistas, uma limitação empobrecedora, que nos desvia de uma indagação mais séria. Talvez seja um desígnio da divindade, no sentido de uma possível obstrução do mistério à instância humana, sendo a descrição mito-poética, possivelmente, o único meio acessível, dentre os recursos da linguagem, para aproximar do homem o entendimento sobre os mistérios da criação. Uma investigação dos caminhos da hipótese científica da evolução parece mais fértil, por estar menos ou quase nada envolvida pela trama vaga e multiforme da metáfora. 
Em algum momento da história ou da pré-história, o animal que se projetava como o iminente hominídeo - o avô do homo sapiens - desce das árvores e resolve aventurar-se mais tempo pelo chão, até fazer dele o seu domínio, vindo a tornar-se o que se batizou como homo erectus. Quem poderá saber o que motivou tal mudança? A carência de frutos, a extinção das florestas em grandes áreas do seu habitat? Talvez tenha sido um ato basicamente voluntário, uma decisão intuitiva ou precariamente racional do homo, o que bem poderia ser um sinal do desenvolvimento intelectual já em curso. O chão pode ter-lhe projetado a noção - ainda que instintiva - de ser mais apropriado às novas ambições de ampliar a liberdade e a desenvoltura. Insistindo nisso, em pouco tempo desacostumou-se da vida aéreo-arbórea, da habilidade de transitar com rapidez de galho em galho no nível superior das florestas, reduto ideal pra fugir aos predadores. A vida no chão, além de torná-lo desajeitado no trato com a escalada das árvores, em que até então era perito, obrigou-o também a adotar gradativamente a postura ereta, imprescindível para alcançar os frutos nos galhos mais acessíveis - possivelmente a primeira base alimentar - e mais apropriada para vasculhar o horizonte. A coluna vertebral verticalizou-se. As patas dianteiras transformaram-se em mãos, aperfeiçoando recursos tácteis e prêenseis. As pernas traseiras fortaleceram-se, avolumaram-se, pois passaram a carregar um fardo mais pesado. E assim por diante.  A certa altura, as florestas e savanas estavam povoadas de hominídeos, um estágio de transição, uma ponte entre o animal irracional e o homem.
Quanto tempo terá durado esse processo? Provavelmente milênios. A natureza não dá saltos e os processos evolutivos que foram desvendados até agora demonstram que, em verdade, ela anda muito devagar, a passo de tartaruga. A evolução das espécies se arrasta numa dança medida em milhares ou milhões de anos, cabendo lembrar que a teoria do Big Bang supõe que o universo tenha surgido entre 10 e 20 bilhões de anos atrás e o Sol tenha cerca de 5 bilhões de anos. Seja como for, é muito provável que numa fase certamente longa da evolução, durante o intervalo de tempo entre o momento em que o macaco ganha o chão definitivamente (e ali passa a maior parte do tempo, utilizando a árvore como um eventual e cada vez menos freqüente refúgio na fuga dos predadores ou para a coleta de alimento) e aquele em que surge como um hominídeo relativamente avançado intelectual ou materialmente, já aparelhado com o mais rudimentar artefato de defesa contra os outros animais, deverá ter experimentado a mais grave situação de perigo à sobrevivência da espécie. Foi a prova de fogo, o teste de resistência mais delicado e perigoso, senão o único momento em que a raça humana efetivamente esteve ameaçada de extinção, possibilidade que se renovou no século XX, com a ameaça do apocalipse atômico. Enquanto restrito à forma de vida aérea, protegido pelas possibilidades de fuga, defesa e também pela abundância de alimentos proporcionados pela árvore, nosso ancestral esteve relativamente seguro. Prova disso são os macacos que ainda sobrevivem e que não teriam chegado até aqui se essa forma de vida não fosse minimamente aparelhada à disputa e manutenção de um lugar no concerto dos ecossistemas. Porém, quando começa a viver no chão, ainda que mais evoluído intelectualmente, deve ter passado um longo tempo sem condições de projetar e fabricar o primeiro artefato de caça ou defesa. Até esse momento, viveu uma fase de extrema fragilidade, quando devia ser presa fácil dos predadores. Como terá sobrevivido até a ocasião em que se deu conta de que sua força redobrava quando se unia aos semelhantes ou até vislumbrar que poderia ter uma arma a partir de uma lasca de pedra ou madeira encaixada em um bastão qualquer, e assim potencializou suas possibilidades de caçar ou defender-se, constitui mais um enigma.
Por outro lado, quando o hominídeo, a partir da evolução do cérebro, que se dá no sentido de um aumento da capacidade craniana, usa sua “inteligência” cada vez maior para fabricar artefatos, inaugura um domínio implacável sobre as outras espécies, muitas vezes fatal. Torna-se o senhor dos animais e da natureza. Domestica algumas espécies, enfrenta com superioridade as indóceis e insubmissas, enxotando ou exterminando, e assim prossegue até os nossos dias, em que a industrialização incontrolável - estágio universal e radicalmente avançado do homo faber - propaga um domínio completo do homem sobre a Natureza.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cioran (Silogismos da Amargura)

 "O tempo está proibido para mim. Não podendo seguir sua cadência, agarro-me a ele ou o contemplo, mas nunca estou dentro dele: não é meu elemento. E em vão espero um pouco de tempo dos outros!"
* * *


"Para o louco, qualquer bode expiatório é bom. Ele suporta suas derrotas acusando; como lhe parece que os objetos são tão culpados como os seres, ataca quem quer; o Delírio é uma economia de expansão; obrigados a discriminar melhor, nós nos concentramos em nossas derrotas, nos agarramos a elas por não encontrar fora sua causa ou seu alimento; o bom senso nos impõe uma economia cerrada, uma autarquia do fracasso."

* * *

"Na busca do tormento, na obstinação de sofrer, só o ciumento pode competir com o mártir. No entanto, canoniza-se um e ridiculariza-se o outro".



                                       


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Excerto (Grande Sertão: Veredas)






"... O diabo na rua, no meio do redemunho...
Hem? Hem? Ah. Figuração minha, de pior pra trás, as certas lembranças. Mal haja-me! Sofro pena de contar não... Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada - motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas - vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. E que isso é? Eh, o senhor já viu, por ver, a feiúra de ódio franzido, carantonho, nas faces duma cobra cascavel? Observou o porco gordo, cada dia mais feliz bruto, capaz de, pudesse, roncar e engolir por sua suja comodidade o mundo todo? E gavião, corvo, alguns, as feições deles já representam a precisão de talhar para adiante, rasgar e estraçalhar a bico, parece uma quicé muito afiada por ruim desejo. Tudo. Tem até tortas raças de pedras, horrorosas, venenosas - que estragam mortal a água, se estão jazendo em fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se sabe? E o demo - que é só assim o significado dum azougue maligno - tem ordem de seguir o caminho dele, tem licença para campear?! Arre, ele está misturado em tudo.
Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor - compadre meu Quelemém diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é..."

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

                  



“Viver é muito perigoso”. Ainda que possa não ser uma das maiores lições de Grande Sertão: Veredas, a frase várias vezes repetida no livro resume, em sua concisão, muitas ressonâncias existenciais, religiosas, psicológicas, pra não falar da carga de presságio que o futuro só tratou de confirmar, a ponto de podermos afirmar que viver foi e é a cada dia mais perigoso.
No contexto do livro citado, o maior perigo ao qual a afirmação quer aludir é o da morte, pois o enredo pode ser resumido, grosso modo, como a narração da trajetória e peripécias de um grupo de jagunços em fuga constante das tropas do governo, por um sertão sem começo nem fim. Logo em seguida, pode-se admitir outro perigo evidente, o de confrontar-se o narrador com o diabo e passar pela tentação de vender-lhe a alma, se é que isso seja possível ou se é que o diabo exista, as duas interrogações mais penetrantes que perpassam o texto, do início ao fim, como tema recorrente ou idéia fixa do autor-narrador. O momento culminante da narrativa, o mais evidente tour de force do autor, é a cena do julgamento do chefe de um dos grupos de jagunços, presidido pelo chefe maior e acompanhado por todo o bando, a céu aberto.
Terminada a leitura do livro, resta uma decepção no leitor, que é a de não ter ocorrido o encontro, que haveria de ser fatal para uma das partes, entre o narrador, o melhor atirador dos sertões, e Hermógenes, o personagem que corporifica o mal, a encarnação do demo e vai atraindo contra si toda a antipatia do leitor.
Segundo Paulo Francis, não existem, na história universal da literatura, cinqüenta autores ou obras com a genialidade de Guimarães Rosa e Grande Sertão: Veredas. O traço inconfundível do texto, que o torna peça rara, talvez única na literatura mundial é que, em mais de quinhentas páginas de letra miúda (Editora Nova Fronteira, 1994, 29ª edição) será difícil encontrar uma frase sequer que não contenha um neologismo, uma transgressão gramatical, uma recolha de linguajar sertanejo transcrita num formato erudito (lembrando Shakespeare), um virar do avesso, enfim, na forma usual de escrever.
Uma narrativa literariamente revolucionária, produzida por um autor de criatividade genial, falecido três dias depois de eleito, aclamado e de ter discursado como membro da Academia Brasileira de Letras.



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Nomadismos diversos

I
METAIS

Os metais nascem da paciência
surda da terra           fundem-se em
                                silêncio.

Os metais crescem
ferozmente
(cristais vibrantes se
             acasalam).

Os metais pulsam
cruelmente
nunca dormem nem
sonham
- meditantes.

Os metais se
entretecem
fundamente

- metais cantam no
   âmago
   do tempo.

(ORIDES FONTELA - Teia)


 

 
II
"O Espírito é o grande favorecido com as derrotas da carne. Enriquece-se à sua custa, a saqueia, regozija-se com suas misérias; vive do banditismo.  A civilização deve seu êxito às proezas de um bandido."


III
"Nossas vacilações levam a marca de nossa honradez; nossas certezas a de nossa impostura. A desonestidade de um pensador se reconhece pela quantidade de idéias precisas que enuncia."

(EMILE M. CIORAN - Silogismos da Amargura)





domingo, 12 de dezembro de 2010

Da série "fatos e curiosidades sobre gênios da humanidade"

"...Em Berlim, onde permaneceu até 30 de março de 1841, Marx estudou direito, atendendo ao pedido do pai, porém na verdade dedicava-se mais à filosofia, que era, nas universidades alemãs da época, o assunto de maior interesse intelectual, e fascinava Marx, que tinha uma queda natural para o assunto. Agora Marx se fecha em seu quarto para pensar e estudar, 'repele as amizades', como ele próprio escreve, 'despreza a natureza, a arte e a sociedade, passa muitas noites acordado, luta em muitas batalhas, sofre muitas agitações provocadas por causas externas e internas', lê desbragadamente, planeja trabalhos gigantescos, escreve poesia, filosofia, faz traduções."


"...seu isolamento social já era completo - ele nunca mais estimularia nenhuma amizade senão aquelas que condiziam com seus interesses intelectuais; e de tanto trabalhar sua saúde fora abalada. Enviado para o campo para recuperar-se, lera toda a obra de Hegel e mais a de seus discípulos. Já começara a transformar-se no grande rabino secular de sua época... Karl Marx, também um professor na tradição judaica, porém totalmente desvinculado do sistema judaico e tendo todo o pensamento ocidental à sua disposição, viria a desempenhar um papel de liderança sem precedentes no mundo moderno."


"... quando Marx se formou, Bauer já havia começado a ter problemas, devido a suas atividades anti-religiosas e pró-constitucionais; e perdeu sua cátedra na primavera seguinte. Assim, a possibilidade de que o mais talentoso filósofo da nova geração na Alemanha - a respeito do qual alguém já dissera que assim que pisasse numa sala de aula, todos os olhos da Alemanha estariam voltados para ele -, a possibilidade de que o jovem dr. Marx seguisse o exemplo de seus grandes predecessores, Kant, Fichte e Hegel, e expusesse seu sistema de um púlpito acadêmico, foi destruída para sempre."


"... Àqueles que falavam de Justiça, Marx e Engels replicavam: 'Justiça para quem? No capitalismo, são os proletários que são presos com mais frequência e os que recebem os castigos mais severos; ao mesmo tempo, como passam fome quando estão desempregados, são eles que são levados a cometer a maioria dos crimes'. Àqueles que falam de Liberdade, eles replicavam: 'Liberdade para quem? Jamais será possível libertar o trabalhador sem restringir a liberdade do proprietário'. Àqueles que falavam em Vida Familiar e Amor - que supostamente estariam sendo destruídos pelo comunismo - eles respondiam que essas coisas, na sociedade da época, só existiam para a burguesia, já que a família proletária fora desmembrada com a utilização de mulheres e menores nas fábricas, levando jovens a fazer amor nos moinhos e minas ou vender seus corpos quando os moinhos e minas se fechavam. Àqueles que falavam do Bem e da Verdade, Marx e Engels retrucavam que jamais saberíamos o que essas palavras queriam dizer até que surgissem moralistas e filósofos que não estivessem mais comprometidos com uma sociedade baseada na exploração, e portanto não tivessem nenhum interesse pessoal na perpetuação da opressão. 
Assim, o Manifesto comunista foi a expressão do protesto, talvez o mais candente que já se viu em letra de forma, contra as versões de todos esses belos ideais que haviam se entronizado durante a era burguesa..."


"... como era incapaz de fazer o que quer que fosse de modo superficial, para escrever um desses artigos (de jornal) fazia mais leituras - tanto de obras de fôlego, como histórias da Espanha e da Índia, quanto de correspondências diplomáticas e relatórios parlamentares - do que muito autor respeitável costuma fazer para escrever um livro inteiro.  Queixava-se a Engels, com toda a razão, de que dava a essas publicações em termos de trabalho muito mais do que elas lhe davam em dinheiro."



Extraído de Wilson, E., Rumo à estação Finlândia, São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1993.




quinta-feira, 9 de dezembro de 2010






               Gabriela Mistral                                                



 MONTANHA DE NOITE
Acenderemos fogos na montanha.
Lenhadores, a noite se aproxima
e astro nenhum trará nos escaninhos.
Trinta fogueiras hoje acenderemos.

Porque a tarde quebrou há pouco um vaso
de sangue no horizonte. E é mau agouro.
Juntos fiquemos ao redor do fogo
para que não habite em nós o espanto.

Esse fragor de catadupas lembra
um incansável galopar de potros
pela montanha. Enquanto sobe um outro
fragor dos nossos temerosos peitos.

Dizem que pela noite o êxtase negro
os pinheiros esquecem, e a um estranho
sinal secreto, sua multidão 
move-se, vagarosa, na montanha.

A esmeralda da neve então adquire
riscando a treva um arabesco oblíquo.
Sobre o ossário da noite que se estende
representa um bordado de ossos, lívido.

Há um alude invisível que dos montes
desliza mas não chega ao vale inerme.
Há morcegos que vêm, de asas rugosas,
roçar o rosto do pastor que dorme.

Dizem que pelos ermos apertados
da serra próxima, andam junto à sombra
daninhos animais que o vale ignora
nascidos, como grenhas, da montanha.

Já me penetra o coração o frio
do cume ao lado. Penso: porventura
os mortos que deixaram por impuras
as cidades, escolhem o regaço

recôndito e ermo dos desfiladeiros
de escarpa azul que alba nenhuma banha
e, quando a noite adensa seus betumes
tal como um mar invadem a montanha.

Rachai troncos espessos e fragrantes,
pinheiros que dão chama abrasadora,
apertai bem o cerco da fogueira
porque há frio e angústia, lenhadores.

pílulas de sabedoria

"Poetas imaturos imitam; poetas maduros roubam."

T. S. Eliot




"Quando se rouba de um autor,  chama-se plágio; quando se rouba de muitos, chama-se pesquisa."
Wilson Mizner




"As pessoas nunca mentem tanto quanto depois de uma caçada, durante uma guerra ou antes de uma eleição."
Otto Von Bismarck




"Um missionário é uma pessoa decidida a reformar o mundo, quer este queira ou não."
Oscar Wilde




"Algumas pessoas escrevem tão bem que tenho ganas de devolver minha pena para o ganso."
Fred Allen







 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

CIÊNCIA E FÉ

São muitos os mistérios que desafiam as ciências e mais ainda os que povoam o imaginário das mentes não-científicas. Com os seus arsenais lógicos e metodológicos, armazenados desde os primórdios da matemática até a consolidação do método científico - com Galileu e Newton -, fundado na observação empírica dos fenômenos e na dedução lógica das leis que os explicam, as ciências levaram o homem a acumular um conhecimento impressionante em todas as áreas, do micro ao macro-universo, das partículas subatômicas às galáxias.
As mentes não-científicas, por sua vez, costumam se deixar levar pelos terrenos pantanosos e movediços da superstição, da mera opinião, dos mitos e lendas, onde a razão acaba chafurdando.
Adorno e Horkheimer diagnosticaram com espanto o que seja possivelmente o maior paradoxo do mundo moderno: nunca a ciência e o conhecimento avançaram tanto, supostamente promovendo um igual recuo das superstições em geral, mas, ao mesmo tempo, nunca antes o homem havia se deparado com atos de barbárie tão indizíveis como os cometidos no século XX, pelo próprio homem. A época humana mais iluminada pela razão foi também a mais desumana de todos os tempos. Os autores mencionados tentam explicar o que aconteceu, numa obra de alto refinamento intelectual e erudição, creio que ao alcance interpretativo de muito poucos (Dialética do Esclarecimento).
O equívoco deve estar na suposição de que o universo mítico tenha recuado. Ao lado do mundo criado pelo avanço científico continua a persistir outro de caráter mágico, sobrenatural, pois a alma humana é devorada por fomes e sedes que o racional não é capaz de satisfazer. O homem é um ser pequeno demais diante do fardo imenso da existência, da eventual constatação do seu absurdo, do torvelinho caótico das coisas do mundo. As respostas das ciências são limitadas e contingentes e, quando o homem tem de confrontar-se com os grandes mistérios que rondam a vida e a morte, toda ciência reunida é vã como um sopro, nada além de um deserto para um caminhante sedento. Nessa hora, o homem grita seu lamento contra a mudez implacável das estrelas e, esmagado pelo silêncio do céu, revolta-se, enlouquece, prostra-se sem saber o que fazer, reza, implora, subjuga os vícios de uma vida inteira, sente-se a criatura mais miserável de todas, abandonada pelos deuses da ciência e da fé.
Não creio que o homem encontre na ciência amparo espiritual. Ela é fria, amoral, anti-humana, a despeito de ser obra humana. A imagem caricata do cientista maluco que, se preciso, explodiria o mundo em nome de alguma descoberta que o tornasse famoso, tem um fundo de assustadora verdade.
Todo saber é poder. Bacon resumiu nesse axioma uma verdade que passou a reger um mundo cada vez mais racional e científico. Mas há um saber não-racional, governado por regras que fogem aos limites da lógica, e a maioria das pessoas vive nesse âmbito. Muito do fracasso das experiências políticas totalitárias que tivemos até hoje, se deve ao fato de terem imposto a proibição das práticas religiosas. O homem é criatura que não suporta viver sem esperança ou fé, sem poder apoiar suas esperanças em algo sobrenatural.
O espírito é que sustenta o corpo, e não o contrário, e o seu alimento é de natureza espiritual, não pode ser obtido pelo recurso às ciências. O que cumpriria descobrir é de qual fonte vem o alimento que liberta às vezes o lobo que dormita no íntimo do homem.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

UM POUCO DE POESIA

RAINER MARIA RILKE

                         


"Quem, seu eu gritasse, me ouviria dentre as ordens
dos anjos? e mesmo que um me apertasse
de repente contra o coração: eu morreria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
E assim eu me reprimo e engulo o chamamento
dum soluçar escuro. Ai! de quem poderíamos
nós então valer-nos? Nem de anjos, nem de homens,
e os bichos perspicazes reparam já
que nós não estamos muito confiantes em casa
neste mundo explicado...
Oh! e a Noite, a Noite, quando o vento cheio de espaço dos mundos
nos desgasta a face... É mais leve aos amantes?
Ai! eles apenas se tapam um com o outro a sua sorte.
Pois não o sabes ainda? Arroja dos braços o vácuo
para os espaços que respiramos; talvez as aves
sintam o ar alargado com um vôo mais íntimo...

... mas porque estar-aqui é muito, e porque parece
que precisa de nós tudo o que há aqui, todo esse efêmero
que estranhamente nos interessa. A nós, os mais efêmeros. Uma vez
cada coisa, só uma vez. Uma vez e não mais. E nós também
uma vez. Nunca mais. Mas esta
uma vez ter sido, mesmo que só uma vez:
ter sido terrestre não parece revogável.

E assim nos acotovelamos e queremos cumpri=lo,
queremos contê-lo nas nossas mãos simples,
no olhar mais repleto e no coração sem fala.
queremos o devir - Para o dar a quem? De preferência
ficar com tudo para sempre... Ai, para a outra relação,
ai! o que é que para lá se leva? Não a arte de ver, aqui
lentamente aprendida, e nada do aqui acontecido. Nada.
Os sofrimentos, portanto. Portanto, antes de tudo, o que é grave e difícil,
portanto do amor a longa experiência, - portanto
apenas o Indízível. Mas mais tarde,
entre as estrelas, de que serve?...





EUGENIO MONTALE

                                 

"Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
árido, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbado.

depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde demais, e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo."

...
a enguia, tocha, açoite,
flecha de Amor na terra
que só as nossas ravinas ou os ressecados
regatos pirenaicos reconduzem
a paraísos de fecundação,
a verde alma que procura
a vida onde só
reina a aridez e a desolação,
a centelha que diz
tudo começa quando tudo parece
carbonizar-se, galho enterrado,
breve arco-íris, íris gêmea
daquela que teus cílios encastoam
e que fazes brilhar intacta entre os filhos
do homem, afundados no teu lamaçal, podes tu
não crê-la irma?

O TEMPO E OS TEMPOS
Não há um tempo único: são muitas as fitas
que deslizam paralelas
muitas vezes em sentido contrário e raramente
se entrecruzam. É quando se revela
a verdade pura que, descoberta,
é rapidamente suprimida por quem vigia
as engrenagens e os desvios. E se retomba
depois no tempo único. Mas naquele átimo
os poucos viventes puderam reconhecer-se
para dizerem-se adeus, não até logo.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

DA MALÍCIA


Capítulo I

A derivação do mal (do latim malu) e o parentesco com a maldade (do latim malitate) já estão contidos no próprio nome e na raiz etimológica da malícia (do latim malitia). No entanto, ela nem precisaria socorrer-se desse recurso de remontar às origens para fazer-se conhecer, mesmo por maus entendedores, pois é uma presença tão corriqueira em nossas vidas quanto fácil de reconhecer, ainda mais se você for o alvo dela, quando então sofrerá seu efeito como o de uma ferroada na carne, que dificilmente esquecerá, num processo idêntico ao da ação de uma ordem sobre aquele que obedece, segundo a doutrina de Elias Canetti: “...toda ordem compõe-se de um impulso e de um aguilhão. O impulso obriga o receptor ao seu cumprimento e, aliás, da forma como convém ao conteúdo da ordem. O aguilhão, por sua vez, permanece naquele que a executa... esse aguilhão penetra fundo no ser humano que cumpriu uma ordem, e permanece imutavelmente cravado ali. Dentre todas as construções psíquicas, nada há que seja mais imutável...”
A malícia não passa despercebida a qualquer um que tenha um pouco de tirocínio, ainda que faça parte do seu complexo estrutural alguma intenção de dissimular-se, conforme faz crer a dose de ironia que sempre acompanha suas manifestações. São diversos os tipos de malícia, uns mais perniciosos do que os outros, provavelmente correspondentes aos vários graus de maldade que existem no homem, sendo esta a componente elementar por trás de todos os tipos da primeira, maldade que vai desde a que passa quase despercebida até aquela que promove os genocídios, dos quais os séculos XIX e XX nos apresentam amostras fartas e eloquentes.
Na vida social, é de bom-tom mostrar-se dotado de algum grau de malícia. Pode-se mesmo observar que o nível exigido pra não fazer má figura em sociedade aumenta na mesma proporção em que esta é mais refinada e polida.  O refinamento do grupo social se faz acompanhar por um igual aparelhamento do complexo da malícia. Por falar em complexo, agora de um ponto de vista mental, quanto menos dotado de malícia for o indivíduo, mais complexos psíquicos irá acumulando durante a existência. A certa altura, Robinson em sua ilha, antes de descobrir Sexta-Feira, será o ideal de vida.
Por outro lado, é intrigante notar a que ponto de depreciação chegou a bondade. Os que a possuem em dosagem um pouco acima da média, não poupam esforços para escondê-la. “Ter bondade é ter coragem” deixou de ser apenas um verso de música para tornar-se reflexo da realidade cotidiana de alguns.  Saramago relata em seus diários o quanto surpreendeu-se, num encontro de intelectuais e estudantes – supostamente o que uma sociedade tem de melhor, ao menos intelectualmente – ao ver como prevalecia o elogio da malandragem, da esperteza, da astúcia, em suma, da malícia e do ma(u)l, e como a bondade jazia esquecida, até que ele próprio, Saramago, pondo um grão de areia na engrenagem lubrificada do consenso altissonante, falou que a bondade, se efetivamente praticada e disseminada, quiçá pudesse mudar o mundo. O silêncio que se seguiu foi a garantia de que, ou os ouvintes faziam um pequeno ato de contrição, ou se chacoavalham até os ossos pra lançar aquela sensação incômoda de volta ao fosso do esquecimento, de onde fora puxada pelos cabelos por alguém que soava em outro diapasão.
“Toda unanimidade é burra”. É no apego a essa lição de Nelson Rodrigues que procuro uma saída. Se a malícia dominou o mundo, tornou-se unânime, algo de errado deve haver com o mundo, ou com os homens. A julgar pelos crimes dos homens e da humanidade, desde que o mundo é mundo, ou desde que existem registros escritos da sua história, é custoso acreditar que não seja o mal que comanda os maquinismos. No entanto, a essência do homem é uma mistura de bom e mau, num nível diferente em cada pessoa e variando também na personalidade de uma mesma pessoa no decorrer da sua existência. Mas a impressão que fica é que o mal está na dianteira, dá mais ibope, atrai mais gente. A história, por sua vez, é escrita pelos vencedores e esses costumam adornar seus feitos com as cores do heroísmo, quando não os inventam a seu bel-prazer. As infâmias sempre são perpetradas pelos vencidos.
A dominação da malícia talvez esteja com os dias contados. A história da bondade não foi ainda devidamente escrita, ou precisa ser reescrita. Vibrando no meio dessas duas expectativas, os homens de boa vontade seguem seu caminho, de cabeça erguida, confiantes de estarem fazendo o que deve ser feito e sabendo que ficar de braços cruzados, ainda que não passasse de rendição, nunca será uma opção.