terça-feira, 30 de novembro de 2010

DA MALÍCIA


Capítulo I

A derivação do mal (do latim malu) e o parentesco com a maldade (do latim malitate) já estão contidos no próprio nome e na raiz etimológica da malícia (do latim malitia). No entanto, ela nem precisaria socorrer-se desse recurso de remontar às origens para fazer-se conhecer, mesmo por maus entendedores, pois é uma presença tão corriqueira em nossas vidas quanto fácil de reconhecer, ainda mais se você for o alvo dela, quando então sofrerá seu efeito como o de uma ferroada na carne, que dificilmente esquecerá, num processo idêntico ao da ação de uma ordem sobre aquele que obedece, segundo a doutrina de Elias Canetti: “...toda ordem compõe-se de um impulso e de um aguilhão. O impulso obriga o receptor ao seu cumprimento e, aliás, da forma como convém ao conteúdo da ordem. O aguilhão, por sua vez, permanece naquele que a executa... esse aguilhão penetra fundo no ser humano que cumpriu uma ordem, e permanece imutavelmente cravado ali. Dentre todas as construções psíquicas, nada há que seja mais imutável...”
A malícia não passa despercebida a qualquer um que tenha um pouco de tirocínio, ainda que faça parte do seu complexo estrutural alguma intenção de dissimular-se, conforme faz crer a dose de ironia que sempre acompanha suas manifestações. São diversos os tipos de malícia, uns mais perniciosos do que os outros, provavelmente correspondentes aos vários graus de maldade que existem no homem, sendo esta a componente elementar por trás de todos os tipos da primeira, maldade que vai desde a que passa quase despercebida até aquela que promove os genocídios, dos quais os séculos XIX e XX nos apresentam amostras fartas e eloquentes.
Na vida social, é de bom-tom mostrar-se dotado de algum grau de malícia. Pode-se mesmo observar que o nível exigido pra não fazer má figura em sociedade aumenta na mesma proporção em que esta é mais refinada e polida.  O refinamento do grupo social se faz acompanhar por um igual aparelhamento do complexo da malícia. Por falar em complexo, agora de um ponto de vista mental, quanto menos dotado de malícia for o indivíduo, mais complexos psíquicos irá acumulando durante a existência. A certa altura, Robinson em sua ilha, antes de descobrir Sexta-Feira, será o ideal de vida.
Por outro lado, é intrigante notar a que ponto de depreciação chegou a bondade. Os que a possuem em dosagem um pouco acima da média, não poupam esforços para escondê-la. “Ter bondade é ter coragem” deixou de ser apenas um verso de música para tornar-se reflexo da realidade cotidiana de alguns.  Saramago relata em seus diários o quanto surpreendeu-se, num encontro de intelectuais e estudantes – supostamente o que uma sociedade tem de melhor, ao menos intelectualmente – ao ver como prevalecia o elogio da malandragem, da esperteza, da astúcia, em suma, da malícia e do ma(u)l, e como a bondade jazia esquecida, até que ele próprio, Saramago, pondo um grão de areia na engrenagem lubrificada do consenso altissonante, falou que a bondade, se efetivamente praticada e disseminada, quiçá pudesse mudar o mundo. O silêncio que se seguiu foi a garantia de que, ou os ouvintes faziam um pequeno ato de contrição, ou se chacoavalham até os ossos pra lançar aquela sensação incômoda de volta ao fosso do esquecimento, de onde fora puxada pelos cabelos por alguém que soava em outro diapasão.
“Toda unanimidade é burra”. É no apego a essa lição de Nelson Rodrigues que procuro uma saída. Se a malícia dominou o mundo, tornou-se unânime, algo de errado deve haver com o mundo, ou com os homens. A julgar pelos crimes dos homens e da humanidade, desde que o mundo é mundo, ou desde que existem registros escritos da sua história, é custoso acreditar que não seja o mal que comanda os maquinismos. No entanto, a essência do homem é uma mistura de bom e mau, num nível diferente em cada pessoa e variando também na personalidade de uma mesma pessoa no decorrer da sua existência. Mas a impressão que fica é que o mal está na dianteira, dá mais ibope, atrai mais gente. A história, por sua vez, é escrita pelos vencedores e esses costumam adornar seus feitos com as cores do heroísmo, quando não os inventam a seu bel-prazer. As infâmias sempre são perpetradas pelos vencidos.
A dominação da malícia talvez esteja com os dias contados. A história da bondade não foi ainda devidamente escrita, ou precisa ser reescrita. Vibrando no meio dessas duas expectativas, os homens de boa vontade seguem seu caminho, de cabeça erguida, confiantes de estarem fazendo o que deve ser feito e sabendo que ficar de braços cruzados, ainda que não passasse de rendição, nunca será uma opção.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A TELEVISÃO


 

A televisão exerce um “poder hipnotizante” (o uso das aspas, no caso, quer acentuar a verdade literal da expressão e não qualquer sentido figurado).

Ligamos o aparelho, sentamos ou deitamos no sofá e a magia se faz: uma embriaguez melíflua vai esparramar-se sobre nós, as horas passarão sem notarmos, o mundo e a vida lá fora seguirão girando em seu curso impetuoso e trepidante, pleno de realidades, enquanto estaremos arrebatados por um outro tipo de realidade, que desfila pela tela, esse substrato de vidro ou cristal impregnado de uma infinidade de pontinhos de luz que são como poros eletrônicos sugando nossa energia (ou nosso cansaço). "...fact is fiction and T.V. is reality..." (Paul ‘Bono Vox’ Hewson). Os enredos de filmes tais como “Poltergeist” e “O chamado” são metáforas coerentes como ilustração dessa troca de energias ou fluidos que acontece entre o tubo de imagens e um ego receptor.

Feita a catarse ou o jogo de ilusionismo, chega uma hora em que, afinal, levantaremos, trôpegos de tanta imobilidade acumulada e por não termos feito nada durante tanto tempo, e será inevitável a sensação de tempo perdido.

 

Seja dito “en passant” que a TV não é a única vilã hoje em dia. Há um grande potencial de hipnotismo-alienante em muitas outras engenhocas do mundo moderno, a começar pelos computadores e seus derivados. A TV talvez tenha sido o começo de tudo, a mãe ou a avó bandida que gerou muitos rebentos não menos criminosos.

Não se credite nosso hipnotismo frente à telinha à qualidade da programação. Concessão seja feita à TV a cabo, aonde, nem que seja às custas de uma oferta mais farta de canais e programas, alguma qualidade haverá de ter sido acrescentada. O postulado marxista que prevê a obtenção da qualidade mediante o incremento da quantidade parece aplicar-se ao caso. Se não é a presença de qualidade que nos prende à tela, deve ser então a ausência dela. Do ponto de vista da psicologia das massas, não é de subestimar a eficácia do apelo de uma programação fútil e ociosa sobre as pessoas, se lembrarmos que, contrariamente à opinião de Descartes, segundo a qual “o bom senso seria a coisa do mundo melhor partilhada entre os homens”, muitos entendem que a estupidez ocupa esse lugar, não só por bem distribuída entre os homens, como por infinita. Dificilmente seria refutável a tese de que não seria esta última, muito mais do que o primeiro, que explicaria os altos índices de audiência televisiva.

Os que buscam qualidade na TV vão gastar o controle remoto e eventualmente encontrarão alguma coisa. Os aficcionados por esportes e notícias terão sua ração diária garantida, assim como os fãs de novelas.  Não podemos deixar de notar, contudo, que esses gêneros não escapam, jamais, a um sintoma comum que lhes contamina e solapa desde as bases: a entediante repetição diuturna das mesmas histórias, enredos, fatos, factóides, etc., com duas pequenas exceções: nos esportes, a ocorrência de atletas excepcionais que têm levado o homem e as modalidades esportivas aos seus limites físicos extremos e, no caso dos noticiários, eventos bissextos, a exemplo do 11 de setembro ou das tsunamis no oceano índico, que deixam repórteres e telespectadores em polvorosa por alguns dias, até a poeira baixar e a rotina voltar a banhar as coisas do mundo com sua luz matinal de sempre, “trazendo leite, jornais e calma”*.

Talvez o efeito hipnótico seja fruto mais de nosso cansaço ao fim de um dia de trabalho, do que outra coisa. Ademais, a televisão pode ser uma aliada, ao menos como recurso paliativo, no combate a um dos grandes males que afligem o homem: a solidão.  A TV ligada tende a funcionar como um espantalho desse terrível fantasma, autorizando a provisória inversão de um conhecido provérbio: “antes mal acompanhado do que só.”


 

*Carlos Drummond de Andrade


 


 

Paulo C. Saccomori