sábado, 26 de fevereiro de 2011

Memórias de viagem (IV)



IV - TEMPESTADE E BONANÇA


Vencidas as vastidões de mata e aguaceiros equatoriais da região amazônica e Guianas, o Atlântico foi um desafio difícil. Engolido por violentos temporais, neblina e turbulência, às vezes parecia que o avião ia ser quebrado ao meio. Os festejos da população a bordo silenciaram e tudo ficou em suspenso, esperando algum desfecho iminente.
Alguém teve a péssima idéia de mencionar a palavra “Bermudas” e lembrei na hora do malfadado “triângulo” e das histórias sobre sumiços misteriosos de aviões e navios na região, que até hoje ninguém soube explicar ou atreveu-se a afirmar que não passam de boatos. Pensei também na coragem dos primeiros navegadores que, sabe-se lá em que época perdida da história e com qual tipo de precária embarcação, enfrentaram o alto mar (o qual se acreditava, creio que até a Renascença, fosse habitado por monstros marinhos e tivesse fim num precipício sem fundo). Esses aventureiros deviam ter muito de loucos ou uma coragem incomum, somadas provavelmente a boa dose de ambição por algum ganho ou descoberta que a viagem pudesse envolver.
Quando o clima melhorou tivemos nossa recompensa: a vista inebriante de várias ilhas do Caribe banhadas pelos raios do sol. As estradas e rios eram como veias e artérias de um corpo ou linhas traçadas num papel amarrotado. Iates e veleiros atracados nas enseadas não passavam de pequenos pontos brancos. Camadas de nuvens logo abaixo de nós choviam miudamente sobre o solo provavelmente vulcânico das ilhas, e as manchas de sombra se projetavam movediças, ao sabor dos ventos.
Depois das Antilhas, a viagem ganhou em monotonia e o bom humor das primeiras horas foi sendo empurrado pra algum lugar cada vez mais fundo, deixando na superfície sinais de cansaço e impaciência. Entrementes, lá embaixo só mar e nuvens o tempo todo.
Nove horas depois do embarque, o avião começou a descer. Todos iam sentados e as luzes internas foram quase todas apagadas, mergulhando o ambiente numa penumbra carregada. Lá fora, a noite começava a cair. Os semblantes sérios e a pouca conversa denunciavam o cansaço da viagem e a ansiedade com a aterrissagem iminente. Me vi tentando entender como poderia chegar ao chão, sem problemas, todo aquele peso imenso do avião, passageiros e bagagens, flutuando no ar misteriosamente. A desaceleração e a gravidade me fizeram descobrir que tinha tímpanos e que eles estavam prontos pra estourar. Fui ficando surdo e passei a responder com acenos de cabeça. Reparava nos outros e via lábios se movendo, diálogos em andamento, mas não ouvia nada além do zumbido de descompressão que vazava pela fuselagem. Chegamos à hora em que a noite parecia ter ocupado a cena, mas as estrelas ainda se escondiam. O avião pairava próximo às águas escuras, até parecia que o pouso seria no mar. O silêncio só era quebrado pelo ruído da potência invertida das turbinas, segurando o avião quase parado no ar.
Depois de uma longa descida, finalmente vimos terra de novo, na forma de terrenos baldios à beira do mar, sem sinais de vida. As primeiras luzes do Queens acenaram seu brilho, enquanto baixamos à altura de empinar papagaios. De repente, luzes explodiram pra todos os lados, respingando de cores o lusco-fusco. Surgiram pistas de pouso, artefatos de aeroporto e o JFK nos acolheu em seu concreto rude, onde as rodas da aeronave bateram com violência. Aplausos irromperam a bordo, espontâneos, homenagem anônima ao pouso seguro e alívio de tensões mal disfarçadas.
Um céu noturno de névoa e frio nos espreitava em New York.

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