quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MEMÓRIAS DE VIAGEM (VIII)

A PRIMEIRA MANHÃ

Fui acordado pelo barulho de sirenes (depois descobri que ao lado do hotel ficava um corpo de bombeiros). A luminosidade láctea da alvorada invadia o quarto, filtrada pelas cortinas. Do lado de fora, o frescor da manhã trazia aos pulmões uma sensação de ar puro e as ruas quase vazias davam a impressão de se estar numa cidade qualquer.

Fui tomar o café da manhã num boteco perto do hotel. O ambiente se ressentia da falta de espaço e até onde eu já tinha observado esse devia ser um problema em toda Manhattan, além de explicar o preço astronômico do metro quadrado e a proliferação de arranha-céus imponentes. Mais tarde descobri que a ilha foi vendida pelos índios por um punhado de dólares! Provavelmente a valorização imobiliária mais espetacular da história...

Pedi a mais simples torrada com café do cardápio, e mesmo isso veio acompanhado de ovos fritos e batatas. O “breakfast” era uma refeição completa, sinal de uma sociedade laboriosa, com pressa de viver, que começa o dia bem alimentada para, se preciso, postergar ou mesmo cancelar o almoço, em nome dos negócios ou da falta de tempo.

O tempo, a propósito, urgia, e eu tinha de me apressar se não quisesse perder um tour por Manhattan, que logo ia partir em frente ao hotel. Quando paguei a conta, observando melhor a mulher que me atendera, que parecia dona ou sócia do lugar, notei nela qualquer coisa, que não era beleza, vivamente intrigante: uma serenidade irradiava pelo rosto, atestando muita força interior, provavelmente forjada numa rica experiência da vida. Esbocei um cumprimento demorado na despedida e a mulher devolveu em termos que refletiam equilíbrio e bom-senso, deixando passar despercebido o que pudesse haver de galanteio no meu cumprimento, mas sem ser, no entanto, deselegante.

Em frente ao hotel já estacionara um ônibus de New Jersey, conforme dizia a placa, e alguns hóspedes formavam fila para o embarque, enquanto outros assomavam no sagüão, ligeiramente atrasados. Ocupei um assento logo na entrada. Na poltrona da frente sentou-se uma garota carioca, sozinha, pele bronzeada, lenço ao pescoço... Sozinha em termos, pois havia entrado junto com outras pessoas. Pensei em me juntar a ela e foi o que fiz ao vê-la concordar com um aceno, no momento em que o ônibus partia.

O roteiro era o mais turístico e previsível, aquele das cartilhas de turismo: começando pelo Rockefeller Center, passando pelo Central Park, Harlem, Metropolitan Opera, Universidade de Nova York, sede da ONU, e terminando num cais de porto do East River, com vista para o Brooklin. Em todos os lugares a mesma cena se repetia: as paradas breves, o grupo de turistas correndo atrás do guia atabalhoadamente, os locais visitados apenas em rápidos vislumbres, intercalados pelo contínuo sobe e desce do ônibus.

Na enxurrada de elementos urbanos, dois lugares me impressionaram: a visão majestosa da St. Patrick Cathedral, uma igreja em estilo gótico, estranhamente espremida no meio dos arranha-céus; e o Dakota, o célebre edifício que foi cenário de filme e onde um lunático matou John Lennon a tiros. Esses dois lugares foram um hiato espiritual no meio da vertigem turística. E, durante um longo trecho, o Central Park acompanhou o passeio, oferecendo aos olhos suas promessas de repouso vegetal e servindo de contraponto ao domínio do aço e do concreto.

No início da tarde, desembarcamos de volta no hotel. Um calor de verão espantara o frio da manhã e nos obrigava a sobraçar blusões e casacos, agora incômodos. Quando dei por mim, todos tinham se dispersado apressadamente, inclusive a garota carioca, de quem me perdi entre uma parada e outra do tour.



MEMÓRIAS DE VIAGEM (VII)


IMPRESSÕES NOTURNAS E DE COMO SOBREVIVER AO ATAQUE DE UM NATIVO


Já era noite fechada quando desci até o hall e atravessei a porta giratória do hotel, deixando pra trás o calor pesado e sufocante do sistema de calefação. Passando em frente ao restaurante do hotel, um casal de brasilienses que conhecera no vôo acenou através do vidro, convidando que eu entrasse. Voltei e me juntei a eles pra um rápido jantar.
O contato com a carta de pratos e com os garçons americanos me puseram na primeira aflição lingüística da viagem. Se você não conhece razoavelmente uma língua estrangeira, pedir um guardanapo, um copo ou qualquer outra coisa tão simplória, pode ser um problema, obrigando o sujeito a esquecer e agüentar-se sem o que precisa, a tentar se fazer entender numa língua alternativa (tente o espanhol), ou a utilizar a universal linguagem dos sinais, que não é tão universal assim, pois o que num lugar significa uma coisa, em outro pode significar o contrário, e daí você pode imaginar as enrascadas que te espreitam.

Enfim, não demorei muito, pois meu interesse não era perder tempo comendo e enquanto os outros se recolhiam aos quartos eu voltava às ruas e à empolgação quase sôfrega de mergulhar “de cabeça” na noite que recém começava. Tomei o rumo de Times Square. Apesar da má reputação, ainda me pareceu a rota menos perigosa pra um caminhante solitário, já que, indo pelo outro lado eu logo alcançaria os limites do Central Park - verdadeira terra de ninguém durante a noite - e provavelmente estaria nas manchetes do dia seguinte, na estatística das vítimas do submundo nova-iorquino.

Segui pela Oitava Avenida, evitando ruas secundárias e zonas mais escuras. Assim, de maneira obrigatoriamente tímida naquelas circunstâncias, fui fazendo minhas primeiras descobertas da "alma de New York". Não ousei nenhum movimento heterodoxo e avancei em linha reta várias quadras ou blocos, enquanto o frio também avançava, encorpado pela ventania. Pra disfarçar, tentei parecer um morador da cidade que estivesse caminhando meio sem destino, procurando evitar qualquer apreciação demorada dos edifícios, vitrines ou traços arquitetônicos - conforme exigia a hora e a ausência de companhia. Decidi fazer o caminho de volta ao notar que os únicos ocupantes das ruas começaram a resumir-se a pequenos grupos suspeitos estacionados nas esquinas ou nas zonas de penumbra. Inconformado, dei de ombros à intenção inicial de caminhar indefinidamente, sem limite de tempo ou destino.

Quando já chegava às portas do hotel, remoendo minha inconformidade por me recolher tão cedo, recém chegado de tão longe, resolvi continuar nas ruas. A cidade clamava que eu continuasse, cochichava aos meus ouvidos que tinha tanto a mostrar, despia-se sedutoramente diante de mim... Porém, tudo mudou de uma hora pra outra. O destino aprontou uma das suas e toda a minha firme resolução virou pó num instante. Logo de saída, ao dobrar a esquina, esbarrei de ombros num americano que vinha em minha direção, encolhido dentro de um sobretudo, trazendo as mãos ocultas nos bolsos e a cabeça envolta num capuz ou barrete. O sujeito era alto, aparentemente corpulento, e, a julgar pelo estado das roupas e do asseio geral, no mínimo estaria desempregado. Com o esbarrão, caiu-lhe uma garrafa que trazia escondida dentro do casaco e seguiu-se um estalar de vidros quebrando e o precioso líquido sumindo nas rachaduras da calçada. A reação imediata do americano foi belicosa. Com gestos largos e semblante enfurecido, avançou contra mim e não parava de dizer, na verdade quase gritava: “you broken my bottle; you broken my wine”, enquanto eu recuava e só conseguia retrucar, de forma reveladora e não sem apreensão, que era estrangeiro e que não falava inglês. Ficamos nesse impasse: o americano investindo e eu recuando, observando os movimentos das suas mãos com uma atenção e nitidez de câmera lenta, esperando surgir a qualquer momento uma lâmina, a mente num turbilhão, trabalhando como se mil demônios estivessem ao redor.
O impasse resolveu-se, pra surpresa minha, apenas com a oferta que fiz de algumas moedas que me sobravam nos bolsos. Desconsolado, o sujeito apanhou o dinheiro, balançou a cabeça e sumiu da minha vista pra nunca mais, dobrando a esquina.

Suspirei aliviado e surpreso com a solução limpa, higiênica, livre de confronto físico, exceto aquele primeiro que originou tudo, de minha parte incondicionado. Ainda hoje cogito se tudo não seria uma armação do nativo, uma intimidação teatral que habitualmente usasse contra pedestres distraídos, com o fito de conseguir algum dinheiro. Se foi isso confesso que o americano tinha talento artístico de sobra. Andei alguns passos, revisei o incidente e conclui que só me vi livre de uma situação pior, que nem ouso ponderar, porque o trânsito de pessoas era mais ou menos intenso no local, porque fui alvo de uma repentina indulgência do nativo, ou talvez porque ele não estivesse armado, como é praxe nos filmes e na literatura em geral, em ocasiões do gênero.

Depois do incidente, a vontade de andar esmoreceu, junto com a ousadia inicial, um tanto ingênua, própria do conjunto das emoções da chegada, quando eu me sentia um pouco dono da cidade, um pioneiro retardatário e anacrônico, como no verso da música do U2:

New york like a Crhistmas Stree,

tonight this city belongs to me”.1

Aceitei, quase supersticioso, o que me pareceu uma mensagem de mau agouro, e voltei pro quarto. Adormeci embalado pelos sons da noite, que chegavam num progressivo enfraquecimento, diluídos pelo acolchoado das grossas cortinas, pelo sono que avançava seus maquinismos, misturados à música que brotava do rádio, de alguma emissora qualquer comprimida no dial em meio a dezenas de outras que eu vasculhara com o controle remoto, curioso e impressionado com a quantidade de emissoras que se acotovelavam no apertado espaço de sintonização do aparelho.










1 Nova York como uma árvore de Natal,

esta noite, esta cidade me pertence.



MEMÓRIAS DE VIAGEM (VI)


                                      VI – A PRIMEIRA TESE



                                      No hotel, muita confusão. O hall era uma zona de guerra: bagagens pra todo lado, uma multidão de turistas recém chegados e perdidos, procurando um rumo, um falatório desenfreado, sem começo nem fim, subia indecifrável até o teto. Os funcionários do hotel transitavam tranqüilos em meio ao caos, nada vendo além da monótona repetição do corriqueiro.
Depois das burocracias de praxe, de posse da chave do quarto, fui em direção aos elevadores. Esbocei um aceno com a cabeça em cumprimento a hóspedes americanos que estavam saindo festivamente. À direita, o bar do hotel estava agitado. Dentro do elevador, à medida em que subia, os barulhos foram se distanciando, até sobrar apenas os rangidos metálicos das engrenagens e espias. Uma freada brusca e me vi no sétimo andar.

                                      O corredor palidamente iluminado por lâmpadas penduradas nas paredes e os passos engolidos por um grosso carpete me deram a estranha sensação de estar no cenário de um filme policial ou de suspense. Felizmente não houve nenhum tiroteio ou emboscada. Meu quarto ficava no fim do corredor. Abri a porta, avancei um passo e respirei fundo, enquanto dava uma passada de olhos pelo lugar. Joguei as malas a um canto e caminhei com urgência até a janela. Ao puxar as cortinas, vi deflagrar-se a vida noturna do mundo lá fora: tráfego lento e escasso na Oitava Avenida; ruas secundárias que nela desembocavam, escuras e decerto perigosas; pessoas circulando por todos os lados; ao longe, a última linha de luzes sendo engolida pela escuridão, e esta invadida por uma grossa neblina que se alastrava vagarosa e pesadamente. Uma noite tipicamente londrina, dos tempos de Jack, o Estripador.

                                      Os ruídos de fora subiam, entravam pela janela e ficavam flutuando dentro do quarto ou batendo em meu peito. Alguns vinham de longe, sussurrando, carregados de segredos. Outros, lancinantes, me colocavam em estado de alerta. Fiquei parado em frente à janela um longo tempo, entorpecido, ou pelo cansaço da viagem, ou por alguma força hipnótica qualquer. Quando voltei a mim, despertado por uma sirene de bombeiros, tive a sensação de que o tempo havia parado.

Então vislumbrei a primeira tese sobre o medo da solidão: dela temos medo porque nos habituamos com a presença do Outro sempre à mão, servindo como anteparo ou espelho de nós mesmos. É uma necessidade psicológica, o Outro submetido à função de escora pra nossa vulnerabilidade, configurando o que chamamos de “vocação gregária do homem”.

Trazido de volta à realidade imediata, dei-me conta da necessidade urgente de um banho.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
indesculpavelmente sujo,
eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
que tenho sofrido enxovalhos e calado,
que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
para fora da possibilidade do soco;
eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
arre, estou farto de semideus!
Onde é que há gente neste mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ricículo sem ter sido traído,
como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
vil no sentido mesquinho e infame de vileza.

FERNANDO PESSOA

terça-feira, 22 de maio de 2012





O raio da bomba era trinta centímetros
o raio de seu alcance efetivo sete metros
contendo quatro mortos e onze feridos.
Ao redor deles,
num círculo maior de dor e tempo,
estão espalhados dois hospitais
e um cemitério. Mas a rapariga,
enterrada no lugar de onde veio,
a uns cem quilômetros daqui
aumenta bem o círculo.
E o homem solitário chorando esta morte
nas províncias de uma terra do Mediterrâneo
inclui no círculo o mundo todo.
E vou omitir o prantear de órfãos
que alcança o trono de Deus.
E vai além, e amplia o círculo
pro sem fim e pro sem Deus.

YEHUDA AMICHAI

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices, o tempo que lhes resta para viverem. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa...

a maneira como se ama entre nós, os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois... como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber...

Em Oran, porém, os excessos do clima, a importância dos negócios que se tratam, a insignificância do cenário, a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres, tudo exige boa saúde. Lá o doente fica muito só...



A. CAMUS (A peste)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A IGNORÂNCIA É O NOSSO GRANDE PATRIMÔNIO NACIONAL.

PAULO FRANCIS
História, s.f. Um relato, quase todo falso, de eventos, quase todos sem importância, provocados por governantes, quase todos uns velhacos, e soldados, quase todos uns patetas."

AMBROSE BIERCE
"SOB A DEMOCRACIA, UM PARTIDO DEVOTA SUAS PRINCIPAIS ENERGIAS À TENTATIVA DE PROVAR QUE O OUTRO PARTIDO É INCOMPETENTE PARA GOVERNAR - E AMBOS CONSEGUEM E AMBOS ESTÃO CERTOS."

H.L. MENCKEN
"Sejamos justos: acontecia serem meritórios os meus esquecimentos. Já notou que há pessoas cuja religião consiste em perdoar todas as ofensas, e que efetivamente as perdoam, mas nunca as esquecem? Eu não era feito de matéria que me permitisse perdoar as ofensas, mas acabava sempre por esquecê-las. E, se alguém se julgasse detestado por mim, custava a acreditar que estava sendo saudado por um largo sorriso. Segundo a sua índole, admirava então a minha grandeza de alma ou desprezava a minha desfaçatez, sem pensar que a minha razão era mais simples: eu tinha esquecido até o seu nome. O mesmo defeito que me tornava indiferente ou ingrato, fazia-me magnânimo."

ALBERT CAMUS


domingo, 8 de abril de 2012


"O homem não se submete aos anjos nem se rende inteiramente à morte, a não ser apenas pela debilidade e fraqueza de sua vontade."


JOSEPH GLANVILL
"A diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites."

ANÔNIMO

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O MUNDO NÃO LÊ

          Pesquisa recente divulgada pelo instituto Research and Development, da Universidade de Harvard, constata que a humanidade que chega ao início do segundo milênio não lê. No que se refere ao Hemisfério Oriental do planeta, África e América Latina em geral, a constatação não se constitui em novidade, posto que a leitura nunca chegou a estabelecer-se como rotina ou projeto, no caso da maioria dos regimes ditatoriais seja pela própria destruição do acervo literário da tradição, promovida pelos revolucionários quando assumiam o poder político, exemplo que foi seguido pelos nazistas incineradores de livros, em época não muito distante, seja, nos antigos regimes comunistas, pela invasão do capitalismo com seu séquito de ilusionismos e atrativos de entretenimento, que deixam a leitura na lona (nocaute no primeiro round).
          No Hemisfério Ocidental do planeta a constatação pode gerar alguma surpresa. No entanto, a pesquisa é clara e aponta para o fato de que o pequeno contingente de leitores que ainda remanesce se restringe aos sobreviventes das duas ou três gerações nascidas após a Segunda Guerra, ou seja, um contingente envelhecido e cada vez mais diminuto, normalmente afastado do poder político e decisório.
          Os prognósticos para o futuro próximo indicam a falência da estrutura de editoras e livrarias no formato atual, num processo idêntico ao que acomete a indústria fonográfica e cinematográfica. O leitor do futuro, se existir, deverá ser algo parecido a um manipulador de e-books, com as córneas e cristalinos lenta e gradativamente torrados pela radiação implacável das telas luminosas. Os poucos livros de papel que restarem e, com o tempo, o próprio papel, serão cuidadosamente acondicionados em museus decadentes, eventualmente visitados por saudosistas tomados de alguma febre passadista ou pelos novos, uma vez na vida, movidos pela curiosidade de saber do que se trata, afinal, essa coisa tão comentada pelos avós como tendo sido a mais comum, talvez de todos os tempos, a ponto de dar nome às próprias civilizações do passado recente: Civilizações do Papel.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O QUE NÃO LER

          Delfim Netto tinha uma biblioteca com 250 mil livros. Doou-os todos, à USP. Era o maior acervo particular do Brasil, quase só obras de economia, história, filosofia e geografia. Pouca coisa de literatura.
          Óbvio, ninguém lê 250 mil livros. Se você ler um livro por dia, serão 365 por ano, 36.500 em cem anos. Delfim Netto está com 82 anos. Digamos que tenha se alfabetizado aos cinco. Não leria 250 mil livros nem se encarasse três por dia... Certos livros não precisam ser lidos por inteiro, é claro, sobretudo se não são de literatura. Alguns são de consulta, uns valem só por causa de uma fatia do conteúdo, outros devem ser apenas percorridos, não lidos completamente. Mesmo assim, é possível que Delfim Netto tenha lido 10% de sua biblioteca. Ou seja: 25 mil livros. Um portento.
          Minha pequena biblioteca tem cerca de 2% dos livros do Delfim Netto, que inveja dele. Quantos desses li? Mil? Dois mil? Não faço idéia, mas sei que, felizmente, minha capacidade de ler é bem inferior à quantidade de livros que me interessam. Por isso, não posso perder tempo. É preciso estabelecer critérios.
          Os autores jovens, por exemplo. Só leio um autor jovem quando ele fica velho. Seria pouco inteligente perder tempo com um autor desconhecido, havendo tantos que são consagrados, mas que ainda não li. Agora, se avanço até, digamos, a centésima página de um livro e concluo que não gostei, fecho-o com estrépito e o ponho de lado para a eternidade. Antes não conseguia fazer isso, tinha de seguir aos bocejos até o ponto final. Hoje, não mais. O tempo urge.
          Como vou gastar tempo estirando-me nas redes sociais se ainda não li todos os 10 volumes da lavra de Churchill sobre a II Guerra, que estão a me desafiar... Certos programas de TV também não valem um parágrado de Ulisses, que tentei ler na adolescência e parei na frase vegetissombras flutuavam silentes na paz matinal. Aquele paralelepípedo de papel continua esperando pelo dia em que me torne mais inteligente e entenda o que J. Joyce queria dizer com tudo aquilo. Suspeito que esse dia não chegará.
          Há muita coisa para ler e, todos os dias, muita coisa é escrita e publicada, e assim mais aumenta a minha defasagem e a minha ignorância. Esta semana saiu uma pesquisa a respeito disso, do hábito de leitura dos brasileiros. A cada ano que se vai dezembro abaixo diminui a quantidade de brasileiros que leem livros...
          O todo-poderoso da CBF, o ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanchez disse numa entrevista que nunca lê, a não ser um único tipo de livro: sobre o Corinthians... Eis a diferença: Delfim Netto e seus 250 mil livros de não ficção; Andrés Sanchez e seus 132 livros sobre o Corinthians. Cada qual com seu acervo, cada qual com seus predicados. Delfim Netto, um homem do passado; Andrés Sanchez, o brasileiro do futuro. O Brasil tem tudo para vencer campeonatos de futebol.



DAVID COIMBRA
... mas o coração tem sua memória e eu nada esqueci da nossa bela capital, nem dos seus cais. Paris é uma verdadeira ilusão de ótica, um magnífico cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Ou quase cinco milhões, segundo o último recenseamento? Bem, eles devem ter feito filhos. Não me surpreenderia. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões desenfreadas: as idéias e a fornicação. A torto e a direito, por assim dizer.  Aliás, procuremos não condená-los: não são os únicos, é o mesmo em toda a Europa. Às vezes imagino o que dirão de nós os futuros historiadores. Uma só frase lhes bastará para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois dessa forte definição, o assunto ficará, se assim posso me expressar, esgotado.




ALBERT CAMUS

terça-feira, 3 de abril de 2012

"O ser é, e não é possível que não seja. É o caminho da certeza, que acompanha a verdade. O outro caminho é: o ser não é, e necessariamente o não ser é. Esse é um estreito caminho no qual nada se pode aprender. Pois não se pode apreender pelo espírito o não ser, que está fora do nosso alcance. Também não se pode exprimi-lo por palavras: com efeito, é a mesma coisa, pensar e ser."

"Necessariamente é preciso dizer e pensar que o ser é, pois é o ser. Quanto ao não ser, nada é... (surdos, cegos, aturdidos, multidão irrefletida, para a qual ser e não ser, é e não é, é a mesma coisa.)

"Não há que temer que jamais se prove que o não ser é." "Só nos resta um caminho a percorrer: o ser é. E há uma multidão de sinais de que o ser é incriado, imperecível, pois somente (o ser) é completo, imóvel e eterno. Não se pode dizer que foi, ou que será, pois é todo inteiro no instante presente, uno e contínuo... não se pode nem dizer, nem pensar, que o ser não é..."

"O juízo recai no seguinte dilema: ou o ser é ou o ser não é." "Como poderia o ser vir à existência no futuro? Ou como teria vindo à existência no passado? Se veio à existência, não é. E o mesmo ocorre se deve vir a existir um dia. Elimina-se, extingue-se. Assim, a geração e a corrupção são inconcebíveis".

"O ato do pensamento e o objeto do pensamento se confundem. Sem o ser, no qual é enunciado, não é possível encontrar o ato do pensamento; pois nada há e jamais haverá coisa alguma fora do ser, uma vez que o Destino o encadeou de modo que seja único e imóvel..."



PARMÊNIDES

segunda-feira, 2 de abril de 2012

BANDARILHEIRO



          Ele tinha cara e corpo de toureiro. Ou então não de toureiro, que mata o touro. De bandarilheiro, que o irrita. Afinal, o Millôr era só meio espanhol. O touro dele era qualquer coisa grande ou metida a grande, qualquer coisa com chifres que assustavam os outros, mas não ele, qualquer coisa pomposa e ridícula, qualquer coisa prepotente. Mas, acima de tudo, o touro dele era a burrice. No lombo da burrice, ele espetava suas bandarihas coloridas, seus epigramas pontudos, suas parábolas incisivas, suas frases marcantes, sua inteligência afiada, esquivando-se dos chifres da besta. No fim, ele só não conseguiu driblar a coisa mais burra que existe: a morte.
          Especulação dolorosa: o que teria passado pelo seu cérebro nestes úlimos dias, preso a um corpo inutilizado? Que memórias, que imagens ocuparam sua mente antes do fim? Ele na sua última arena, diante do seu último touro. Arena vazia, só os dois, num cara a cara final. Ele sem seus instrumentos: sem lápis, sem teclado, sem defesa. E, na sua frente, a burrice na sua forma definitiva. A burrice total, a burrice imune a argumento ou súplica, a  burrice irreversível, a burrice triunfante. Não adianta ele sugerir que ao menos dancem uma valsa, a burrice não tem senso de humor. Nem se pode chamá-la de vingativa - ele sabe que no fim, depois das bandarilhas coloridas e de todas as piruetas, a vitória será dela. Por mais ridicularizada que ela seja, a vitória é sempre dela. E depois vem a burrice eterna.
          No seu sonho terminal, o touro começa sua carga. E o bandarilheiro não consegue sair do lugar. 


LUIZ F. VERISSIMO

sexta-feira, 30 de março de 2012


"Eu me revolto, logo existimos", dizia o escravo. A revolta metafísica acrescentava então o "estamos sós" em que ainda vivemos atualmente. Mas se estamos sós sob o céu vazio, se portanto é preciso morrer para sempre, como podemos realmente existir? A revolta metafísica tentava então realizar o ser com o parecer. Em seguida, os pensamentos puramente históricos vieram dizer que ser era agir. Nós não éramos, mas por todos os meios devíamos ser. Nossa revolução é uma tentativa de conquistar um novo ser pela ação, fora de qualquer regra moral. É por isso que ela está condenada a só viver para a história, e no terror. O homem, segundo a revolução, não é nada se não obtém na história, por bem ou por mal, o consentimento unânime. Neste ponto preciso, o limite é ultrapassado, a revolta é inicialmente traída e, em seguida, logicamente assassinada, pois ela nunca deixou de afirmar, em seu movimento mais puro, a existência de um limite e o ser dividido que somos: ela não se acha na origem da negação total de todo ser. Pelo contrário, ela diz simultaneamente sim e não. Ela é a recusa de uma parte da existência em nome de outra parte que ela exalta. Quanto mais profunda é a exaltação, tanto mais implacável é a recusa. Em seguida, quando, na vertigem e na fúria, a revolta passa ao tudo ou nada, à negação de todo ser e de toda natureza humana, é neste ponto que ela se renega. Somente a negação total justifica o projeto de uma totalidade a ser conquistada. Mas a afirmação de um limite, de uma dignidade e de uma beleza comuns a todos os homens só acarreta a necessidade de estender esse valor a todos e a tudo e marchar para a unidade sem renegar suas origens. Neste sentido, a revolta, em sua autenticidade primeira, não justifica nenhum pensamente puramente histórico. A reivindicação da revolta é a unidade, a reivindicação da revolução histórica, a totalidade. A primeira parte do não apoiado em um sim, a segunda parte da negação absoluta, condenando-se a todas as servidões par fabricar um sim adiado para o fim dos tempos. Uma é criadora, a outra, niilista. A primeira está fadada a criar a fim de existir cada vez mais; a segunda é forçada a produzir para negar cada vez melhor...

consideremos que ao "Eu me revolto, logo existimos", ao "Nós estamos sós" da revolta metafísica, a revolta em conflito com a história acrescenta que, em vez de matar e morrer para produzir o ser que não somos, temos que viver e deixar viver para criar o que somos.



A. CAMUS (O Homem Revoltado).

quarta-feira, 28 de março de 2012

A coisa mais comum do mundo é confundir convivência com amizade.



Todo mundo tem uma porção de amigos que detesta e um ou outro inimigo de que gosta.



Não sei por que o governo faz tanta questão de impor censura, não sei por que a maior parte dos intelectuais luta tanto pela abolição da censura. Em nossos pequenos períodos de liberdade o que se percebe é que quase ninguém tem nada a dizer, ou prefere não dizer ou, mais comumente, só deseja mesmo dizer coisas deliciosamente favoráveis.



Uma dessas cidades tão pacatas que nem tem lugares que não devam ser frequentados.



Casado, bom pai, trabalhador, cumpridor de seus deveres, tem todos os defeitos que impedem a boemia.



A situação está insustentável. Por isso temos que tirar satisfação das coisas mais triviais. Por exemplo - nestes dias de calor violento nunca deixe de botar o papel higiênico no freezer.



MILLÔR FERNANDES (1924 - 27/03/2012)

terça-feira, 27 de março de 2012

ANJOS

A sequência histórica de religiões ocidentais - zoroastrismo, judaísmo, cristianismo, Islã - não soube contar a história de suas verdades sem intercessões angélicas, nem há grande tradição religiosa, oriental ou ocidental, que não dependa de anjos. A vida espiritual, expressa no culto ou na prece, na contemplação privada ou nas artes, precisa de alguma espécie de visão de anjos...

Santo Agostinho, a maior de todas as autoridades cristãs, disse que não sabíamos se os anjos tinham corpos materiais... Pode-se tomar São Tomás de Aquino como representante da posição escolástica católica de que os anjos são puramente espirituais, enquanto o poeta John Milton pode representar os humanistas e protestantes que insistiram em que todos os seres reais devem ser corporificados... os anjos bons de Milton são também heréticos no se manterem por sua própria força, não pela de Deus... o mais extraordinário retrato de qualquer anjo que temos ou teremos é o do Satanás de Milton, que usa sua liberdade para danar-se titanicamente...




H. BLOOM


... o segundo choque da obviedade sobrevém a muitos que se encontram em condições iguais às minhas, ou seja, que possuem em casa uma bliblioteca de certas dimensões - de tal maneira que, entrando em nossa casa, as pessoas não tenham como deixar de notá-la, inclusive porque nossa casa não contém muitas outras coisas. O visitante entra e diz: "Quantos livros! Já leu todos?" No início eu achava que esta frase só fosse pronunciada por pessoas de escassa intimidade com o livro, acostumadas a ver apenas estantezinhas com cinco livros policiais e mais uma enciclopédia infantil em fascículos. Mas a experiência me ensinou que também é pronunciada pelas pessoas mais inesperadas. Pode-se dizer que se trata quase sempre de pessoas que concebem as estantes como mero depósito de livros lidos e não a biblioteca como instrumento de trabalho, mas isto não bastaria. Estou convencido de que, quando se vê diante de muitos livros, qualquer pessoa é tomada pela angústia do conhecimento, e fatalmente resvala para a pergunta que exprime seu tormento e seus remorsos... é preciso dar uma resposta à pergunta sobre os livros, enquanto o maxilar se enrijece e filetes de suor gelado escorrem ao longo da coluna vertebral. Durante algum tempo adotei uma resposta desdenhosa: "não li nenhum deles; senão, por que estariam aqui?"... ultimamente, eu me inclino por outra afirmação: "Não, estes são os que preciso ler durante o próximo mês, os outros eu guardo na universidade", resposta que por um lado sugere uma sublime estratégia ergonômica e, por outro, induz o visitante a antecipar o momento da despedida.


U. ECO

segunda-feira, 26 de março de 2012

A Bíblia nos ensina a amar o próximo e também os nossos inimigos. Talvez porque sejam as mesmas pessoas.


G. K. CHESTERTON
É perigoso ter razão em assuntos sobre os quais as autoridades estabelecidas estão erradas.



VOLTAIRE

domingo, 25 de março de 2012


...fui capaz, no espaço de dois anos (embora confesse que com a maior dificuldade), de remover o hábito infernal de mentir, trapacear, enganar e prevaricar, tão profundamente enraizado nas próprias almas de todos os da minha espécie, principalmente os europeus...


J. SWIFT