V – NOVA YORK
O JFK coalhado de aviões desfilava sob os olhares curiosos dos que chegavam e dos que partiam, num incessante sobe-e-desce de aviões de todos os cantos do planeta. O alívio por sobreviver a mais um pouso logo foi esquecido e os mais apressados não demoraram a levantar-se e precipitar-se pelos corredores, vestindo roupas pesadas, pois um frio cortante penetrava por frestas invisíveis. Com os tímpanos quase refeitos e uma bagagem de mão, segui a multidão no rumo da saída. Lá fora, enfim, Nova York à espera. Os poucos conhecidos do vôo foram se perdendo no burburinho e logo me vi novamente a sós comigo mesmo.
Fomos despejados do avião debaixo do sorriso protocolar da tripulação de bordo, para um estranho veículo - mistura de ônibus e salão de baile – que nos levou pela pista até um túnel sanfonado que desembocava em galerias fracamente iluminadas, por onde chegamos à alfândega. A multidão desordenada acabou numa fila indiana, sob os olhares atentos de policiais e funcionários do aeroporto. Lá na frente, sérios e elegantes fiscais aduaneiros examinavam passaportes e faziam perguntas. Um a um, fomos rapidamente interrogados e oficialmente autorizados a invadir a terra do “american way of life”.
No salão das esteiras rolantes, o rio das malas serpenteava sem parar. Encontrei minha bagagem e segui, por corredores quase vazios, até o ponto de embarque para o translado, onde se enfileiravam vários ônibus com placas de Nova Jersey. Quando me acomodei na poltrona, mergulhei num redemoinho de expectativas, algumas pouco nítidas. Ao meu redor, mulheres desconhecidas entre si começavam a conversar, como se fossem amigas de longa data, num colóquio de muitos sotaques, sobre passeios, compras planejadas, maridos e filhos no Brasil, etc. Alheio ao bate-papo frenético, eu tentava planejar o uso do tempo escasso da minha estada na cidade, acossado pela hipótese de ser, a qualquer momento, interpelado por uma das protagonistas do incansável debate. Enquanto isso, os últimos passageiros foram entrando: um casal em provável lua-de-mel, senhoras bem vestidas e perfumadas, famílias em festa e alvoroço...
A demora foi grande, justificada depois por um guia que chegou vermelho e esbaforido: havia passageiros em situação irregular ou passaportes falsos, algo do gênero. Assim que partimos, porém, o atraso foi esquecido pela distração das paisagens urbanas e pela retórica fluente do guia ao microfone que descrevia os atrativos da cidade e oferecia pacotes turísticos, num marketing que funcionava como semente em terra fértil, já que todos estavam interessados em planejar seus passeios e muitos as suas compras (Nova York se tornava um pólo de atração de “sacoleiros de colarinho branco”. Aos meus olhos isso enfraquecia um pouco a tradição e a aura mística da “big apple”).
Enquanto isso, o ônibus deslizava velozmente pelo Queens, favorecido por largas avenidas. A vastidão do aeroporto foi ficando pra trás, entregue à noite escura e fria. Ao longe, as promessas de Manhattan iam surgindo na forma de amontoados de luzes que pareciam pequenas galáxias luminosas rodopiando na escuridão, quando na verdade era apenas o ônibus e a nossa emoção que rodavam sem parar. À beira das avenidas, surgiam áreas residenciais, longos conjuntos de prédios iguais, padronizados, ou então casas com o mesmo desenho, que às vezes sumiam na distância ou no escuro de ruas pouco iluminadas. Depois, indústrias romperam na noite, cinzentas, as chaminés cuspindo grandes rolos de fumaça que sumiam nas alturas, após definharem em fiapos que dançavam na brisa.
O ônibus aquecido atravessava as geladas paredes da noite. Os olhos atônitos vasculhavam indecisos, querendo abarcar todos os cenários e personagens, registrar todos os ângulos. Talvez depois a mente conseguisse recuperar os quadros pouco visualizados, captados num registro subliminar. Enquanto os carros de passeio emparelhavam com o ônibus, eu ia observando as cenas no interior: casais taciturnos e calados, famílias saindo a passeio; uns cantarolando a música do rádio, outros discutindo calorosamente, a julgar pelos gestos e expressões... Centenas de pessoas que eu nunca ia conhecer nem ver de novo, tantos destinos entregues à sorte e se entrecruzando na noite, tudo isso mergulhou meu coração numa grande e vaga nostalgia.
O Queens terminou numa ponte metálica imponente. No alto desta, a maravilha, a apoteose: Manhattan explodindo em luzes, claridades, apelos difusos, até onde o olhar podia alcançar. A cidade era um mar de brilhos, luzes e cores, entregando-se, lasciva, espantando a noite para o alto e para longe e suspendendo seus poderes de aniquilamento. Todos se calaram, soterrados pelo espetáculo da vista. Só se ouvia o ronco do motor e a interminável palestra do guia.
Instantes depois, mergulhamos no coração de Nova York, ansiosos por desvendar seus mistérios (muitos na verdade só querendo desvendar os melhores preços e endereços para compras. Mas, não ousamos censurá-los. Afinal de contas, estávamos no “berço esplêndido” do capitalismo mais selvagem).


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