quarta-feira, 18 de abril de 2012

Nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices, o tempo que lhes resta para viverem. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa...

a maneira como se ama entre nós, os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois... como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber...

Em Oran, porém, os excessos do clima, a importância dos negócios que se tratam, a insignificância do cenário, a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres, tudo exige boa saúde. Lá o doente fica muito só...



A. CAMUS (A peste)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A IGNORÂNCIA É O NOSSO GRANDE PATRIMÔNIO NACIONAL.

PAULO FRANCIS
História, s.f. Um relato, quase todo falso, de eventos, quase todos sem importância, provocados por governantes, quase todos uns velhacos, e soldados, quase todos uns patetas."

AMBROSE BIERCE
"SOB A DEMOCRACIA, UM PARTIDO DEVOTA SUAS PRINCIPAIS ENERGIAS À TENTATIVA DE PROVAR QUE O OUTRO PARTIDO É INCOMPETENTE PARA GOVERNAR - E AMBOS CONSEGUEM E AMBOS ESTÃO CERTOS."

H.L. MENCKEN
"Sejamos justos: acontecia serem meritórios os meus esquecimentos. Já notou que há pessoas cuja religião consiste em perdoar todas as ofensas, e que efetivamente as perdoam, mas nunca as esquecem? Eu não era feito de matéria que me permitisse perdoar as ofensas, mas acabava sempre por esquecê-las. E, se alguém se julgasse detestado por mim, custava a acreditar que estava sendo saudado por um largo sorriso. Segundo a sua índole, admirava então a minha grandeza de alma ou desprezava a minha desfaçatez, sem pensar que a minha razão era mais simples: eu tinha esquecido até o seu nome. O mesmo defeito que me tornava indiferente ou ingrato, fazia-me magnânimo."

ALBERT CAMUS


domingo, 8 de abril de 2012


"O homem não se submete aos anjos nem se rende inteiramente à morte, a não ser apenas pela debilidade e fraqueza de sua vontade."


JOSEPH GLANVILL
"A diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites."

ANÔNIMO

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O MUNDO NÃO LÊ

          Pesquisa recente divulgada pelo instituto Research and Development, da Universidade de Harvard, constata que a humanidade que chega ao início do segundo milênio não lê. No que se refere ao Hemisfério Oriental do planeta, África e América Latina em geral, a constatação não se constitui em novidade, posto que a leitura nunca chegou a estabelecer-se como rotina ou projeto, no caso da maioria dos regimes ditatoriais seja pela própria destruição do acervo literário da tradição, promovida pelos revolucionários quando assumiam o poder político, exemplo que foi seguido pelos nazistas incineradores de livros, em época não muito distante, seja, nos antigos regimes comunistas, pela invasão do capitalismo com seu séquito de ilusionismos e atrativos de entretenimento, que deixam a leitura na lona (nocaute no primeiro round).
          No Hemisfério Ocidental do planeta a constatação pode gerar alguma surpresa. No entanto, a pesquisa é clara e aponta para o fato de que o pequeno contingente de leitores que ainda remanesce se restringe aos sobreviventes das duas ou três gerações nascidas após a Segunda Guerra, ou seja, um contingente envelhecido e cada vez mais diminuto, normalmente afastado do poder político e decisório.
          Os prognósticos para o futuro próximo indicam a falência da estrutura de editoras e livrarias no formato atual, num processo idêntico ao que acomete a indústria fonográfica e cinematográfica. O leitor do futuro, se existir, deverá ser algo parecido a um manipulador de e-books, com as córneas e cristalinos lenta e gradativamente torrados pela radiação implacável das telas luminosas. Os poucos livros de papel que restarem e, com o tempo, o próprio papel, serão cuidadosamente acondicionados em museus decadentes, eventualmente visitados por saudosistas tomados de alguma febre passadista ou pelos novos, uma vez na vida, movidos pela curiosidade de saber do que se trata, afinal, essa coisa tão comentada pelos avós como tendo sido a mais comum, talvez de todos os tempos, a ponto de dar nome às próprias civilizações do passado recente: Civilizações do Papel.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O QUE NÃO LER

          Delfim Netto tinha uma biblioteca com 250 mil livros. Doou-os todos, à USP. Era o maior acervo particular do Brasil, quase só obras de economia, história, filosofia e geografia. Pouca coisa de literatura.
          Óbvio, ninguém lê 250 mil livros. Se você ler um livro por dia, serão 365 por ano, 36.500 em cem anos. Delfim Netto está com 82 anos. Digamos que tenha se alfabetizado aos cinco. Não leria 250 mil livros nem se encarasse três por dia... Certos livros não precisam ser lidos por inteiro, é claro, sobretudo se não são de literatura. Alguns são de consulta, uns valem só por causa de uma fatia do conteúdo, outros devem ser apenas percorridos, não lidos completamente. Mesmo assim, é possível que Delfim Netto tenha lido 10% de sua biblioteca. Ou seja: 25 mil livros. Um portento.
          Minha pequena biblioteca tem cerca de 2% dos livros do Delfim Netto, que inveja dele. Quantos desses li? Mil? Dois mil? Não faço idéia, mas sei que, felizmente, minha capacidade de ler é bem inferior à quantidade de livros que me interessam. Por isso, não posso perder tempo. É preciso estabelecer critérios.
          Os autores jovens, por exemplo. Só leio um autor jovem quando ele fica velho. Seria pouco inteligente perder tempo com um autor desconhecido, havendo tantos que são consagrados, mas que ainda não li. Agora, se avanço até, digamos, a centésima página de um livro e concluo que não gostei, fecho-o com estrépito e o ponho de lado para a eternidade. Antes não conseguia fazer isso, tinha de seguir aos bocejos até o ponto final. Hoje, não mais. O tempo urge.
          Como vou gastar tempo estirando-me nas redes sociais se ainda não li todos os 10 volumes da lavra de Churchill sobre a II Guerra, que estão a me desafiar... Certos programas de TV também não valem um parágrado de Ulisses, que tentei ler na adolescência e parei na frase vegetissombras flutuavam silentes na paz matinal. Aquele paralelepípedo de papel continua esperando pelo dia em que me torne mais inteligente e entenda o que J. Joyce queria dizer com tudo aquilo. Suspeito que esse dia não chegará.
          Há muita coisa para ler e, todos os dias, muita coisa é escrita e publicada, e assim mais aumenta a minha defasagem e a minha ignorância. Esta semana saiu uma pesquisa a respeito disso, do hábito de leitura dos brasileiros. A cada ano que se vai dezembro abaixo diminui a quantidade de brasileiros que leem livros...
          O todo-poderoso da CBF, o ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanchez disse numa entrevista que nunca lê, a não ser um único tipo de livro: sobre o Corinthians... Eis a diferença: Delfim Netto e seus 250 mil livros de não ficção; Andrés Sanchez e seus 132 livros sobre o Corinthians. Cada qual com seu acervo, cada qual com seus predicados. Delfim Netto, um homem do passado; Andrés Sanchez, o brasileiro do futuro. O Brasil tem tudo para vencer campeonatos de futebol.



DAVID COIMBRA
... mas o coração tem sua memória e eu nada esqueci da nossa bela capital, nem dos seus cais. Paris é uma verdadeira ilusão de ótica, um magnífico cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Ou quase cinco milhões, segundo o último recenseamento? Bem, eles devem ter feito filhos. Não me surpreenderia. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões desenfreadas: as idéias e a fornicação. A torto e a direito, por assim dizer.  Aliás, procuremos não condená-los: não são os únicos, é o mesmo em toda a Europa. Às vezes imagino o que dirão de nós os futuros historiadores. Uma só frase lhes bastará para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois dessa forte definição, o assunto ficará, se assim posso me expressar, esgotado.




ALBERT CAMUS

terça-feira, 3 de abril de 2012

"O ser é, e não é possível que não seja. É o caminho da certeza, que acompanha a verdade. O outro caminho é: o ser não é, e necessariamente o não ser é. Esse é um estreito caminho no qual nada se pode aprender. Pois não se pode apreender pelo espírito o não ser, que está fora do nosso alcance. Também não se pode exprimi-lo por palavras: com efeito, é a mesma coisa, pensar e ser."

"Necessariamente é preciso dizer e pensar que o ser é, pois é o ser. Quanto ao não ser, nada é... (surdos, cegos, aturdidos, multidão irrefletida, para a qual ser e não ser, é e não é, é a mesma coisa.)

"Não há que temer que jamais se prove que o não ser é." "Só nos resta um caminho a percorrer: o ser é. E há uma multidão de sinais de que o ser é incriado, imperecível, pois somente (o ser) é completo, imóvel e eterno. Não se pode dizer que foi, ou que será, pois é todo inteiro no instante presente, uno e contínuo... não se pode nem dizer, nem pensar, que o ser não é..."

"O juízo recai no seguinte dilema: ou o ser é ou o ser não é." "Como poderia o ser vir à existência no futuro? Ou como teria vindo à existência no passado? Se veio à existência, não é. E o mesmo ocorre se deve vir a existir um dia. Elimina-se, extingue-se. Assim, a geração e a corrupção são inconcebíveis".

"O ato do pensamento e o objeto do pensamento se confundem. Sem o ser, no qual é enunciado, não é possível encontrar o ato do pensamento; pois nada há e jamais haverá coisa alguma fora do ser, uma vez que o Destino o encadeou de modo que seja único e imóvel..."



PARMÊNIDES

segunda-feira, 2 de abril de 2012

BANDARILHEIRO



          Ele tinha cara e corpo de toureiro. Ou então não de toureiro, que mata o touro. De bandarilheiro, que o irrita. Afinal, o Millôr era só meio espanhol. O touro dele era qualquer coisa grande ou metida a grande, qualquer coisa com chifres que assustavam os outros, mas não ele, qualquer coisa pomposa e ridícula, qualquer coisa prepotente. Mas, acima de tudo, o touro dele era a burrice. No lombo da burrice, ele espetava suas bandarihas coloridas, seus epigramas pontudos, suas parábolas incisivas, suas frases marcantes, sua inteligência afiada, esquivando-se dos chifres da besta. No fim, ele só não conseguiu driblar a coisa mais burra que existe: a morte.
          Especulação dolorosa: o que teria passado pelo seu cérebro nestes úlimos dias, preso a um corpo inutilizado? Que memórias, que imagens ocuparam sua mente antes do fim? Ele na sua última arena, diante do seu último touro. Arena vazia, só os dois, num cara a cara final. Ele sem seus instrumentos: sem lápis, sem teclado, sem defesa. E, na sua frente, a burrice na sua forma definitiva. A burrice total, a burrice imune a argumento ou súplica, a  burrice irreversível, a burrice triunfante. Não adianta ele sugerir que ao menos dancem uma valsa, a burrice não tem senso de humor. Nem se pode chamá-la de vingativa - ele sabe que no fim, depois das bandarilhas coloridas e de todas as piruetas, a vitória será dela. Por mais ridicularizada que ela seja, a vitória é sempre dela. E depois vem a burrice eterna.
          No seu sonho terminal, o touro começa sua carga. E o bandarilheiro não consegue sair do lugar. 


LUIZ F. VERISSIMO