sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A VERDADE


"O que é a verdade?" A premente questão que Pilatos jogou na cara da humanidade e a posteridade tentou em vão responder, é a que mais assombra a filosofia, as ciências e os tratados metafísicos. A antiga definição “adaequatio intellectus et rei” (concordância de um conhecimento com o seu objeto) foi até hoje insuficiente para enfrentar as Grandes Verdades que mobilizam o nosso espanto.
A verdade científica é eterna refém da experiência e dos limites que esta possa alcançar. Como está sujeita aos contínuos avanços e recuos que as novas descobertas proporcionam, sempre será uma verdade provisória e, como tal, não satisfaz a ambição do homem pelo reino dos absolutos, que é onde ele entende que a verdade deva florescer com legitimidade.
A verdade histórica – se não for uma contradictio in termini (contradição dos termos) – é ainda mais precária. Sendo a história um registro factual dos acontecimentos que se sucedem no tempo, depende basicamente dos documentos que tenham sido poupados e chegaram até nós, ou do depoimento de testemunhas que presenciaram os fatos, ou deles ouviram falar. Nos dois casos, a precariedade é evidente. Os documentos escritos carregam aquilo que neles se quis colocar, com toda a parcialidade e carga ideológica que isso implica, geralmente trazendo a versão de um dos lados envolvidos, via de regra o vencedor. O depoimento testemunhal é a precariedade por excelência, a prostituta das provas, pois é a versão pessoal de alguém que presenciou o fato, ou que alega isso, dependendo da memória, do estado psicológico, dos interesses da testemunha, e de um sem-número de outros elementos aleatórios e demasiado subjetivos pra garantir um mínimo de confiabilidade.
A verdade é o que salta aos olhos ou tem de ser perseguida incansavelmente, muitas vezes desencaminhando o investigador com pistas falsas ou pegadas invertidas?  Têm de ser construída no des-velamento de algo escondido, ou está e sempre esteve por perto, bastando abrir a porta certa? A verdade é devir ou é desde sempre?
"Só Deus sabe o que se passa no coração do homem": aqui está o mais próximo que chegaremos da verdade. Rousseau foi o grande mestre do tema, ao deplorar a falta de transparência que havia no comércio entre os homens, a distância entre o sentimento e as aparências, ao constatar que a mentira e a hipocrisia governavam a vida em sociedade. O lamento de Rousseau por termos perdido a virtude de habitar ao lado dos deuses, quando estes liam nos corações dos homens, continuará através dos séculos e a única resposta será o silêncio das estrelas.

4 comentários:

  1. GOSTO MUITO DOS TEUS TEXTOS.
    OBS: ISSO É VERDADE!!!

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  2. Belíssimo texto, Paulo. Lendo-o, lembrei de um aforismo nietzschiano que, como não estou com o livro aqui em PF, não poderei transcrever com precisão, mas diz ele algo como: "se queres o descanso da alma, então crê; se queres ser um discípulo da verdade, então procure-a", sentenciando, assim, que um espírito em busca da verdade é um espírito inquieto, nunca tranquilo. Talvez porque, como o teu texto deixou claro, a verdade seja algo inatingível; esteja além das possibilidades humanas... aos homens, migalhas de verdades postas e aceitas de acordo com as conveniências... mentiras repetidas? Ai, tire-me daqui a metafísica! hahaha. Abraços

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  3. Obrigado Nicole

    é bom saber-se lido e que não estou escrevendo apenas pra mim mesmo. E estar agradando a uma leitora assídua como você, além de rigorosa conhecedora das regras da escrita e da gramática é um negócio que me envaidece (perdoe a falta de modéstia).

    (A sutil ironia da tua OBS. foi sensacional!!!)

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  4. Rodrigo,

    realmente, apostar na crença pacifica as inquietações metafísicas do homem, porque você estará aceitando a chamada "verdade revelada" das religiões, onde há resposta para as Grandes questões, sem base, porém, em provas científicas ou racionais, que são as exigências dos espíritos inquietos, como você colocou.
    A verdade vista como migalhas jogadas ou conquistadas pelo homem, ou como mentiras travestidas (se entendi bem) é uma imagem forte, mas pertinente. Desconsola imaginar que estejamos nos limites, nas fronteiras do desconhecido e não se consiga ir além, ao mesmo tempo em que sentimos um temor reverencial quanto a algumas questões, especialmente no campo moral e religioso, um tabu que interdita a aproximação (Nietzsche avançou esses limites e não acabou bem

    Um abraço

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