domingo, 30 de outubro de 2011

o zero e o nada

                     O zero é o nada "positivado". O vazio mais absoluto, o nada por excelência é impossível de ser pensado ou imaginado. Ele foge aos padrões mentais aos quais o cérebro e a lógica humana tem acesso. O nada não existe, nem em símbolo. Este nada que se representa pelo zero é já um lugar no espaço, uma positivação do vazio.
... Posto que nosso fim era a linguagem,
e a linguagem desde sempre nos levara
a purificar o dialeto da tribo
e a instigar a mente para a antevisão
e a pós-visão, deixa-me revelar as dádivas
à velhice reservadas, para que seja
coroado o esforço de tua vida inteira...





(T. S. Eliot)
... Mas nós quando intentamos uma coisa, inteiramente,
sentimos já o custo de outra a desdobrar-se. Hostilidade
é o que nos está mais próximo. Não vão os amantes chocar-se
constantemente a limites, um no outro,
eles que se haviam prometido espaço, caça e pátria?!...



(Rilke)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

SITUAÇÃO DA LEITURA

Desde o surgimento da escrita (o primeiro alfabeto seria obra dos fenícios, no séc. XII ou XIII a. C.) até a invenção da imprensa e a expansão no número de alfabetizados (séculos XVI a XIX), ler e escrever foram atividades esotéricas, praticadas por muito poucos (escribas no Egito e Oriente antigos; monges copistas durante a idade média, etc.).


Apesar do aumento no número de leitores, especialmente nos séculos XIX e XX, a leitura nunca foi nem será um fenômeno de massas, mas a hipótese inversa, ou seja, a da falência da leitura, talvez até como entretenimento, parece não só possível como plausível e consentânea com o quadro de circunstâncias que podemos ver ao redor.


Supondo que o índice de leitores e o tipo de leitura estejam de algum modo relacionados com o estágio de desenvolvimento sócio-econômico de um país, como se costuma acreditar, tentemos esboçar um retrato da situação da leitura no Brasil, a partir de dois conceitos básicos:


Leitura: ato de ler um “clássico”.


Clássico: texto literário de alta qualidade ou valor estético, cuja leitura provoca a fruição de sentimentos associados à noção do belo, ou o assombro de uma estranheza, ou o deparar-se com um fenômeno único de sensibilidade.


Ou seja, deixaremos de lado todas as leituras e textos que não se incluem nas definições acima, da bula de remédios aos livros de conteúdo meramente técnico-científico, passando pela vasta gama que inclui esoterismos pós-modernos, auto-ajuda, revistas, jornais, panfletos, best-sellers, quadrinhos, psicografias espíritas, etc. etc...


(seria interessante conhecer os dados estatísticos das editoras, sobre quais os gêneros mais publicados e vendidos, mas creio que todos concordarão em que os clássicos não estão incluídos, com raras exceções).


De plano já poderíamos garantir que o leitor que procuramos, se existe no Brasil, por certo em número muito restrito, será naqueles centros – em geral capitais – onde ainda sobreviva alguma intelligentsia. Assim, poderíamos dar a busca por encerrada antes mesmo de começar. Deixemos de lado, apesar de aceitável, essa restrição de plano e sigamos, nem que seja por curiosidade.


Nosso ponto de partida é a hipótese de uma cidade mediana do Brasil, considerando-se como tal uma que represente um retrato médio dos agrupamentos humanos no horizonte das condições de vida brasileiras: nem pobre, nem rica; nem capital, nem provinciana/interiorana demais; nem muito industrializada, nem pouco...


Separemos de início os analfabetos e os semi-analfabetos, i.e., os analfabetos funcionais. Creio que não será exagero excluir 10% da população da nossa cidade fictícia.


Dos 90% restantes, vamos excluir crianças, adolescentes e jovens em geral, os dois últimos grupos por estarem demasiado envolvidos com inúmeros assuntos e interesses do mundo moderno, dos quais a leitura está longe de figurar e, caso figurasse, não sobraria tempo para ela. Teremos aqui de 20 a 30% da população. Fiquemos com 25%.


Dos 65% que ainda restam, vamos excluir a população operária, que dedica a um trabalho braçal estafante o melhor do seu esforço e as horas úteis do dia, de forma que não sobra vontade, ânimo ou tempo pra dedicar à leitura, no máximo a de jornais ou revistas e de forma seletiva, pinçando aqui e ali algum trecho, o que, de resto, se coaduna com esse gênero de texto. Nesse quesito, podemos excluir 20% da população.


Dos 45% restantes, teremos 10% de aposentados, 15% de desempregados, 15% de profissionais liberais, funcionários públicos, trabalhadores autônomos, etc. e ainda sobram 5%, que vamos enquadrar na categoria “outros”.


Da experiência comum que se tem dos aposentados, pode-se afirmar que talvez não se encontre entre eles o leitor que procuramos. É tão comum ver-se as pessoas de mais idade praticando atividades alheias à leitura e, quando se trata desta, vê-los restritos aos jornais, revistas, best-sellers, leituras leves em geral, de mero entretenimento, que somos tentados a acreditar que, talvez por já terem perdido as ilusões, a leitura parece que não passava de apenas mais uma delas.


Creio que os desempregados podem ser excluídos no todo, pois mesmo que algum fosse o leitor que procuramos, a situação de desemprego deve ser suficientemente alarmante para que não pense em outra coisa que não seja sair dela, mesmo que seja solteiro e tenha que cuidar apenas de si mesmo.


Os profissionais liberais e assemelhados, pela experiência de cada um de nós, seja por sermos um deles, seja pela observação empírica dos que o são, desenvolvem uma carreira exigente em termos de responsabilidade social e conhecimento (médicos, professores, advogados, etc.), devendo manter-se minimamente atualizados em sua respectiva especialidade e, portanto, é de supor que conseguirão ler algo não relacionado à profissão nas férias, feriados ou eventuais fins de semana e, nesse caso, será que haverão de procurar os “clássicos”?


Nossa busca talvez tivesse êxito na categoria “outros”, mas paramos por aqui, bruscamente, fatigados demais para tentar discernir os tipos sociais que a compõem e, se otimistas, ficamos na esperança de que ainda existem verdadeiros leitores; se pessimistas, na convicção de que a leitura mais exigente sumiu do mapa.

Vivi mais de quarenta anos e já devo conhecer algumas centenas de pessoas. De minha parte, posso garantir que ainda não conheci nenhum espécime dessa categoria de leitor almejada. Talvez não tenha procurado nos lugares certos, talvez ele seja como o unicórnio ou o pássaro extinto “dodô”, dos quais se diz que existem ou existiram, mas nunca ninguém viu.


“O mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem.” (SARTRE)