quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Há insônia




Insônia

A insônia deve ser tão antiga quanto a humanidade.  Não considero ousadia supor que o primeiro homem terá sido o primeiro insone. Provavelmente o problema começou no dia ou noite em que Adão teve roubada uma costela (sem pedido prévio ou agradecimento posterior) e, em troca, lhe foi dada uma companheira. Adão achou estranha a sonolência fora de hora, mas antes que pudesse gritar ou espernear já estava desacordado e, quando voltou a si, tinha uma costela a menos e uma habitante a mais no Paraíso. Este nunca mais foi o mesmo, nem o sono de Adão, ambos até então tranqüilos e literalmente paradisíacos.
Adão tinha a seu favor, pra voltar a conciliar o sono, os suaves coros dos anjos e as inauditas descobertas das carícias reconfortantes da mulher. O homem e a mulher modernos não contam com os primeiros, além de encontrarem muitas razões pra justificar uma noite mal dormida, o que faz da insônia um mal tão comum quanto é incômodo. Tanto que todo dia deparamos com algum receituário pra acabar com ela, nesses tempos de popularização da auto-ajuda e esoterismos de toda espécie. 
Muitos escritores e artistas souberam usar a insônia em seu proveito e algumas obras de arte certamente são o resultado de madrugadas em claro. Para a maioria, o problema se agrava como bola de neve, levando à depressão e outros males do gênero. Tirando as situações de desconforto material, um quarto ou cama inadequados, o estômago cheio e a digestão difícil, etc., em geral a insônia tem raízes psicológicas e ganha corpo na brecha que se abre na dicotomia relaxar x pensar. Quando você deita e não consegue limpar a cabeça de todo e qualquer pensamento, já está com um passo na insônia. O sono é atraído pelo “estado-mental-de-pensamento-zero”.
Talvez ajude o tradicional "contar carneirinhos" e suas variações: contar títulos de livros, nomes de autores, capitais, de A a Z, etc. De duas uma, ou você dorme ou acrescenta à insônia uma bela dor de cabeça. 


2 comentários:

  1. Paulo, recomendo a leitura daquele meu poema "Dormir é como Morrer" em que, acho, pus toda a intensidade do meu pensamento sobre o que entendo seja o dormir, o amar e o morrer.
    Un abraccio!
    PS: belo texto. Tua narrativa sobre NY também está cativante. Escrever, como amar, já dizia Drummond, se aprende praticando.

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