- O pior já passou... Agora é só aproveitar a paisagem - segredou minha vizinha de poltrona, sinceramente aliviada.
Aeromoças prestativas logo apareceram com o café-da-manhã. Abaixo de nós, bizarras formações de nuvens, cadeias de montanhas, a terra contorcendo-se, uma estrada sinuosa dependurada perigosamente na beira dos abismos. Por cima, a ameaça do espaço sideral e o sol brilhando, desmanchando o frio da fuselagem e os pensamentos a bordo. Em pouco tempo, a primeira visão do oceano. Do alto, a cor da água variava do verde claro ao azul.
- Estranho. Daqui de cima o mar parece imóvel - comentei, despretenciosamente. A mulher, emergindo distraída de uma leitura de viagem, acenou concordante e vaga:
- É mesmo!
As águas parecem descansar, represadas pelo traçado irregular da costa. A ilha de Santa Catarina, do tamanho de um mapa, coube na pequena janela do avião.
Depois de um tempo, o avião começou o caminho de volta à terra firme, enfrentando uma pesada atmosfera de chuva e nevoeiro. O chão só apareceu de novo quando estávamos muito baixos, revelando um emaranhado de áreas urbanas, largas rodovias, eventuais espaços verdes e terrenos baldios. A senhora ao meu lado anunciou, apontando pra baixo: “Guarulhos”.
O avião nos regurgitou sãos e salvos, na manhã cor de chumbo. Avançamos pelo aeroporto em grupos que iam se dispersando aos poucos, precariamente unidos por um resto de solidariedade que sobrava da convivência forçada durante o vôo. Coloquei minhas coisas num desses carrinhos de aeroporto, defeituoso de uma roda, e fui andando entre chiados e solavancos. Dei sinal de vida a meus pais, via telefone. Não pude deixar de notar alguma aflição neles pela minha sorte como “marinheiro de primeira viagem”. Depois, vaguei pelos corredores sem destino, até acabar numa livraria.
O torvelinho de sensações novas se misturava à expectativa do próximo vôo, provocando uma pequena vertigem. Tentei me refugiar junto aos livros, um terreno conhecido, mas não adiantou muito. A vertigem foi ficando mais nítida e pude notar que, além de estar me afastando do meu mundo habitual no espaço, alguma coisa também acontecia quanto ao tempo, a estranha sensação de que eu saía de uma dimensão e estava prestes a entrar em outra.
No horário previsto, levantamos vôo novamente, desta vez sem escalas, com destino a Nova York.

Excelente o texto. Liberando os diários de bordo? ai ai ai
ResponderExcluirReceoso, aguardarei o próximo capítulo... hahaha
Abraços!
Bem colocado... diários de bordo antigos, garimpados no baú, datados inclusive. Nada melhor para produzir provas contra si mesmo. A censura prévia se impõe mais do que nunca, pois depois não vou poder simplesmente alegar que tudo aconteceu numa época anterior ou o desconhecimento como desculpa, mais ou menos como o princípio geral do direito segundo o qual ninguém pode escusar-se alegando que não conhecia a lei...
ResponderExcluirGrato pelo comentário.