mais um "fragmento" do bom e velho Sábato
"...o desenvolvimento dessas distintas fases da atividade humana foi obrigando à especialização... o estudo da física, tão-só, leva hoje toda uma vida... como aprender tudo o que a química, a biologia, a história, a filosofia e a filologia fizeram por seu lado? E, sobretudo, quem será capaz de realizar a síntese deste mundo quase infinito? Aos homens de espírito universal só lhes resta o recurso da melancolia... as ciências chegaram a um grau de desenvolvimento tal que um homem está condenado a se especializar, se quer chegar até a frente de batalha onde se luta com o desconhecido... certos otimistas supõem que a filosofia pode prescindir da ciência, o que me parece uma curiosa forma de ocupar-se com a universalidade... Descartes e Leibniz ainda foram espíritos universais, mas a partir deles começa o êxodo das ciências particulares... Não se pense que esse é um ataque aos filósofos: é um ataque à ingênua idéia de se poder ocupar do universal prescindindo do particular. O reverso dessa ingenuidade é a dos homens de ciência, que julgam poder se ocupar do particular prescindindo do geral: é a ingenuidade dos especialistas... o afã de conhecimento desencadeia uma nova espécie de Caos. Saímos da ignorância e chegamos assim novamente à ignorância, uma ignorância mais rica, mais complexa, feita de pequenas e infinitas sabedorias... a ciência continuou avançando, e com ela a ignorância. Cada avanço na ciência ou na filosofia significou uma nova ignorância que se incorpora ao espírito dos profanos... E então sentimos que o desconhecimento e o desconceto nos invadem por todos os lados e que a ignorância avança rumo a um imenso e terrível porvir."
Que belo texto, meu amigo! Um primor!
ResponderExcluirHá algum tempo já pensava sobre isso mas não atinava na forma de expressá-lo. Sábato, com sua prosa peculiar e cristalina - científica até podemos dizer, eis que o mesmo era um cientista -, expressa de forma eloquente esta situação.
Parabéns pelo achado!
Un abraccio, mio caro.