segunda-feira, 26 de maio de 2014

“Viver é muito perigoso”. Ainda que possa não ser uma das maiores lições de Grande Sertão: Veredas, a frase várias vezes repetida no livro resume, em sua concisão, muitas ressonâncias existenciais, religiosas, psicológicas, pra não falar da carga de presságio que o futuro só tratou de confirmar, a ponto de podermos afirmar que viver foi e é a cada dia mais perigoso.
No contexto do livro citado, o maior perigo ao qual a afirmação quer aludir é o da morte, pois o enredo pode ser resumido, grosso modo, como a narração da trajetória e peripécias de um grupo de jagunços em fuga constante das tropas do governo, por um sertão sem começo nem fim. Logo em seguida, pode-se admitir outro perigo evidente, o de confrontar-se o narrador com o diabo e passar pela tentação de vender-lhe a alma, se é que isso seja possível ou se é que o diabo exista, as duas interrogações mais penetrantes que perpassam o texto, do início ao fim, como tema recorrente ou idéia fixa do autor-narrador. O momento culminante da narrativa, o mais evidente tour de force do autor, é a cena do julgamento do chefe de um dos grupos de jagunços, presidido pelo chefe maior e acompanhado por todo o bando, a céu aberto.
Terminada a leitura do livro, resta uma decepção no leitor, que é a de não ter ocorrido o encontro, que haveria de ser fatal para uma das partes, entre o narrador, o melhor atirador dos sertões, e Hermógenes, o personagem que corporifica o mal, a encarnação do demo e vai atraindo contra si toda a antipatia do leitor.
Segundo Paulo Francis, não existem, na história universal da literatura, cinqüenta autores ou obras com a genialidade de Guimarães Rosa e Grande Sertão: Veredas. O traço inconfundível do texto, que o torna peça rara, talvez única na literatura mundial é que, em mais de quinhentas páginas de letra miúda (Editora Nova Fronteira, 1994, 29ª edição) será difícil encontrar uma frase sequer que não contenha um neologismo, uma transgressão gramatical, uma recolha de linguajar sertanejo transcrita num formato erudito (lembrando Shakespeare), um virar do avesso, enfim, na forma usual de escrever.
Uma narrativa literariamente revolucionária, produzida por um autor de criatividade genial, falecido três dias depois de eleito, aclamado e de ter discursado como membro da Academia Brasileira de Letras.


CIÊNCIA E FÉ

São muitos os mistérios que desafiam as ciências e mais ainda os que povoam o imaginário das mentes não-científicas. Com os seus arsenais lógicos e metodológicos, armazenados desde os primórdios da matemática até a consolidação do método científico - com Galileu e Newton -, fundado na observação empírica dos fenômenos e na dedução lógica das leis que os explicam, as ciências levaram o homem a acumular um conhecimento impressionante em todas as áreas, do micro ao macro-universo, das partículas subatômicas às galáxias.
As mentes não-científicas, por sua vez, costumam se deixar levar pelos terrenos pantanosos e movediços da superstição, da mera opinião, dos mitos e lendas, onde a razão acaba chafurdando.
Adorno e Horkheimer diagnosticaram com espanto o que seja possivelmente o maior paradoxo do mundo moderno: nunca a ciência e o conhecimento avançaram tanto, supostamente promovendo um igual recuo das superstições em geral, mas, ao mesmo tempo, nunca antes o homem havia se deparado com atos de barbárie tão indizíveis como os cometidos no século XX, pelo próprio homem. A época humana mais iluminada pela razão foi também a mais desumana de todos os tempos. Os autores mencionados tentam explicar o que aconteceu, numa obra de alto refinamento intelectual e erudição, creio que ao alcance interpretativo de muito poucos (Dialética do Esclarecimento).
O equívoco deve estar na suposição de que o universo mítico tenha recuado. Ao lado do mundo criado pelo avanço científico continua a persistir outro de caráter mágico, sobrenatural, pois a alma humana é devorada por fomes e sedes que o racional não é capaz de satisfazer. O homem é um ser pequeno demais diante do fardo imenso da existência, da eventual constatação do seu absurdo, do torvelinho caótico das coisas do mundo. As respostas das ciências são limitadas e contingentes e, quando o homem tem de confrontar-se com os grandes mistérios que rondam a vida e a morte, toda ciência reunida é vã como um sopro, nada além de um deserto para um caminhante sedento. Nessa hora, o homem grita seu lamento contra a mudez implacável das estrelas e, esmagado pelo silêncio do céu, revolta-se, enlouquece, prostra-se sem saber o que fazer, reza, implora, subjuga os vícios de uma vida inteira, sente-se a criatura mais miserável de todas, abandonada pelos deuses da ciência e da fé.
Não creio que o homem encontre na ciência amparo espiritual. Ela é fria, amoral, anti-humana, a despeito de ser obra humana. A imagem caricata do cientista maluco que, se preciso, explodiria o mundo em nome de alguma descoberta que o tornasse famoso, tem um fundo de assustadora verdade.
Todo saber é poder. Bacon resumiu nesse axioma uma verdade que passou a reger um mundo cada vez mais racional e científico. Mas há um saber não-racional, governado por regras que fogem aos limites da lógica, e a maioria das pessoas vive nesse âmbito. Muito do fracasso das experiências políticas totalitárias que tivemos até hoje, se deve ao fato de terem imposto a proibição das práticas religiosas. O homem é criatura que não suporta viver sem esperança ou fé, sem poder apoiar suas esperanças em algo sobrenatural.
O espírito é que sustenta o corpo, e não o contrário, e o seu alimento é de natureza espiritual, não pode ser obtido pelo recurso às ciências. O que cumpriria descobrir é de qual fonte vem o alimento que liberta às vezes o lobo que dormita no íntimo do homem.

terça-feira, 1 de abril de 2014

RELATÓRIO DOS DIAS

Um ano depois, um poema (ou tentativa de...):





RELATÓRIO DOS DIAS




...talvez no mínimo

território acuado entre a espuma e o gneiss,

onde respira – mas que assustada – uma criança apenas (CDA)


 



Quero viver cada dia

como se fosse o primeiro

ou o último.

Quero acesso

ao território circunscrito do abraço

e do encontro consumante

com os lábios da amante.

Quero equilíbrio

para cruzar o dia

com o mínimo de dor e guerrilha.

Quero encontrar a mim mesmo

nos limites da carne

e da esperança

na dança

das mãos estendidas

e afetos abertos.

Quero estar lúcido

para o que apenas se insinua

à superfície dos outros...

 

Quando chover

caminharei na chuva

desprezando as marquises.

No frio

tremerei com todos os dentes

até o sol nascer da minha espera.

 

Poucas vezes estarei só:

a solidão dispersa os melhores sonhos

e quando estiver contigo

serei oásis

colher

telhado

e você será meu cais

farol

rosa-dos-ventos...

 

Não queimarei incenso

aos deuses do porvir,

e sentirei que se vingam

no crepitar das tempestades.

O sagrado e o profano

lutam em mim sem trégua,

e no fim

aguardarei um novo começo...

 
P C Saccomori