segunda-feira, 2 de abril de 2012

BANDARILHEIRO



          Ele tinha cara e corpo de toureiro. Ou então não de toureiro, que mata o touro. De bandarilheiro, que o irrita. Afinal, o Millôr era só meio espanhol. O touro dele era qualquer coisa grande ou metida a grande, qualquer coisa com chifres que assustavam os outros, mas não ele, qualquer coisa pomposa e ridícula, qualquer coisa prepotente. Mas, acima de tudo, o touro dele era a burrice. No lombo da burrice, ele espetava suas bandarihas coloridas, seus epigramas pontudos, suas parábolas incisivas, suas frases marcantes, sua inteligência afiada, esquivando-se dos chifres da besta. No fim, ele só não conseguiu driblar a coisa mais burra que existe: a morte.
          Especulação dolorosa: o que teria passado pelo seu cérebro nestes úlimos dias, preso a um corpo inutilizado? Que memórias, que imagens ocuparam sua mente antes do fim? Ele na sua última arena, diante do seu último touro. Arena vazia, só os dois, num cara a cara final. Ele sem seus instrumentos: sem lápis, sem teclado, sem defesa. E, na sua frente, a burrice na sua forma definitiva. A burrice total, a burrice imune a argumento ou súplica, a  burrice irreversível, a burrice triunfante. Não adianta ele sugerir que ao menos dancem uma valsa, a burrice não tem senso de humor. Nem se pode chamá-la de vingativa - ele sabe que no fim, depois das bandarilhas coloridas e de todas as piruetas, a vitória será dela. Por mais ridicularizada que ela seja, a vitória é sempre dela. E depois vem a burrice eterna.
          No seu sonho terminal, o touro começa sua carga. E o bandarilheiro não consegue sair do lugar. 


LUIZ F. VERISSIMO

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