quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MEMÓRIAS DE VIAGEM (VIII)

A PRIMEIRA MANHÃ

Fui acordado pelo barulho de sirenes (depois descobri que ao lado do hotel ficava um corpo de bombeiros). A luminosidade láctea da alvorada invadia o quarto, filtrada pelas cortinas. Do lado de fora, o frescor da manhã trazia aos pulmões uma sensação de ar puro e as ruas quase vazias davam a impressão de se estar numa cidade qualquer.

Fui tomar o café da manhã num boteco perto do hotel. O ambiente se ressentia da falta de espaço e até onde eu já tinha observado esse devia ser um problema em toda Manhattan, além de explicar o preço astronômico do metro quadrado e a proliferação de arranha-céus imponentes. Mais tarde descobri que a ilha foi vendida pelos índios por um punhado de dólares! Provavelmente a valorização imobiliária mais espetacular da história...

Pedi a mais simples torrada com café do cardápio, e mesmo isso veio acompanhado de ovos fritos e batatas. O “breakfast” era uma refeição completa, sinal de uma sociedade laboriosa, com pressa de viver, que começa o dia bem alimentada para, se preciso, postergar ou mesmo cancelar o almoço, em nome dos negócios ou da falta de tempo.

O tempo, a propósito, urgia, e eu tinha de me apressar se não quisesse perder um tour por Manhattan, que logo ia partir em frente ao hotel. Quando paguei a conta, observando melhor a mulher que me atendera, que parecia dona ou sócia do lugar, notei nela qualquer coisa, que não era beleza, vivamente intrigante: uma serenidade irradiava pelo rosto, atestando muita força interior, provavelmente forjada numa rica experiência da vida. Esbocei um cumprimento demorado na despedida e a mulher devolveu em termos que refletiam equilíbrio e bom-senso, deixando passar despercebido o que pudesse haver de galanteio no meu cumprimento, mas sem ser, no entanto, deselegante.

Em frente ao hotel já estacionara um ônibus de New Jersey, conforme dizia a placa, e alguns hóspedes formavam fila para o embarque, enquanto outros assomavam no sagüão, ligeiramente atrasados. Ocupei um assento logo na entrada. Na poltrona da frente sentou-se uma garota carioca, sozinha, pele bronzeada, lenço ao pescoço... Sozinha em termos, pois havia entrado junto com outras pessoas. Pensei em me juntar a ela e foi o que fiz ao vê-la concordar com um aceno, no momento em que o ônibus partia.

O roteiro era o mais turístico e previsível, aquele das cartilhas de turismo: começando pelo Rockefeller Center, passando pelo Central Park, Harlem, Metropolitan Opera, Universidade de Nova York, sede da ONU, e terminando num cais de porto do East River, com vista para o Brooklin. Em todos os lugares a mesma cena se repetia: as paradas breves, o grupo de turistas correndo atrás do guia atabalhoadamente, os locais visitados apenas em rápidos vislumbres, intercalados pelo contínuo sobe e desce do ônibus.

Na enxurrada de elementos urbanos, dois lugares me impressionaram: a visão majestosa da St. Patrick Cathedral, uma igreja em estilo gótico, estranhamente espremida no meio dos arranha-céus; e o Dakota, o célebre edifício que foi cenário de filme e onde um lunático matou John Lennon a tiros. Esses dois lugares foram um hiato espiritual no meio da vertigem turística. E, durante um longo trecho, o Central Park acompanhou o passeio, oferecendo aos olhos suas promessas de repouso vegetal e servindo de contraponto ao domínio do aço e do concreto.

No início da tarde, desembarcamos de volta no hotel. Um calor de verão espantara o frio da manhã e nos obrigava a sobraçar blusões e casacos, agora incômodos. Quando dei por mim, todos tinham se dispersado apressadamente, inclusive a garota carioca, de quem me perdi entre uma parada e outra do tour.



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