quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MEMÓRIAS DE VIAGEM (VII)


IMPRESSÕES NOTURNAS E DE COMO SOBREVIVER AO ATAQUE DE UM NATIVO


Já era noite fechada quando desci até o hall e atravessei a porta giratória do hotel, deixando pra trás o calor pesado e sufocante do sistema de calefação. Passando em frente ao restaurante do hotel, um casal de brasilienses que conhecera no vôo acenou através do vidro, convidando que eu entrasse. Voltei e me juntei a eles pra um rápido jantar.
O contato com a carta de pratos e com os garçons americanos me puseram na primeira aflição lingüística da viagem. Se você não conhece razoavelmente uma língua estrangeira, pedir um guardanapo, um copo ou qualquer outra coisa tão simplória, pode ser um problema, obrigando o sujeito a esquecer e agüentar-se sem o que precisa, a tentar se fazer entender numa língua alternativa (tente o espanhol), ou a utilizar a universal linguagem dos sinais, que não é tão universal assim, pois o que num lugar significa uma coisa, em outro pode significar o contrário, e daí você pode imaginar as enrascadas que te espreitam.

Enfim, não demorei muito, pois meu interesse não era perder tempo comendo e enquanto os outros se recolhiam aos quartos eu voltava às ruas e à empolgação quase sôfrega de mergulhar “de cabeça” na noite que recém começava. Tomei o rumo de Times Square. Apesar da má reputação, ainda me pareceu a rota menos perigosa pra um caminhante solitário, já que, indo pelo outro lado eu logo alcançaria os limites do Central Park - verdadeira terra de ninguém durante a noite - e provavelmente estaria nas manchetes do dia seguinte, na estatística das vítimas do submundo nova-iorquino.

Segui pela Oitava Avenida, evitando ruas secundárias e zonas mais escuras. Assim, de maneira obrigatoriamente tímida naquelas circunstâncias, fui fazendo minhas primeiras descobertas da "alma de New York". Não ousei nenhum movimento heterodoxo e avancei em linha reta várias quadras ou blocos, enquanto o frio também avançava, encorpado pela ventania. Pra disfarçar, tentei parecer um morador da cidade que estivesse caminhando meio sem destino, procurando evitar qualquer apreciação demorada dos edifícios, vitrines ou traços arquitetônicos - conforme exigia a hora e a ausência de companhia. Decidi fazer o caminho de volta ao notar que os únicos ocupantes das ruas começaram a resumir-se a pequenos grupos suspeitos estacionados nas esquinas ou nas zonas de penumbra. Inconformado, dei de ombros à intenção inicial de caminhar indefinidamente, sem limite de tempo ou destino.

Quando já chegava às portas do hotel, remoendo minha inconformidade por me recolher tão cedo, recém chegado de tão longe, resolvi continuar nas ruas. A cidade clamava que eu continuasse, cochichava aos meus ouvidos que tinha tanto a mostrar, despia-se sedutoramente diante de mim... Porém, tudo mudou de uma hora pra outra. O destino aprontou uma das suas e toda a minha firme resolução virou pó num instante. Logo de saída, ao dobrar a esquina, esbarrei de ombros num americano que vinha em minha direção, encolhido dentro de um sobretudo, trazendo as mãos ocultas nos bolsos e a cabeça envolta num capuz ou barrete. O sujeito era alto, aparentemente corpulento, e, a julgar pelo estado das roupas e do asseio geral, no mínimo estaria desempregado. Com o esbarrão, caiu-lhe uma garrafa que trazia escondida dentro do casaco e seguiu-se um estalar de vidros quebrando e o precioso líquido sumindo nas rachaduras da calçada. A reação imediata do americano foi belicosa. Com gestos largos e semblante enfurecido, avançou contra mim e não parava de dizer, na verdade quase gritava: “you broken my bottle; you broken my wine”, enquanto eu recuava e só conseguia retrucar, de forma reveladora e não sem apreensão, que era estrangeiro e que não falava inglês. Ficamos nesse impasse: o americano investindo e eu recuando, observando os movimentos das suas mãos com uma atenção e nitidez de câmera lenta, esperando surgir a qualquer momento uma lâmina, a mente num turbilhão, trabalhando como se mil demônios estivessem ao redor.
O impasse resolveu-se, pra surpresa minha, apenas com a oferta que fiz de algumas moedas que me sobravam nos bolsos. Desconsolado, o sujeito apanhou o dinheiro, balançou a cabeça e sumiu da minha vista pra nunca mais, dobrando a esquina.

Suspirei aliviado e surpreso com a solução limpa, higiênica, livre de confronto físico, exceto aquele primeiro que originou tudo, de minha parte incondicionado. Ainda hoje cogito se tudo não seria uma armação do nativo, uma intimidação teatral que habitualmente usasse contra pedestres distraídos, com o fito de conseguir algum dinheiro. Se foi isso confesso que o americano tinha talento artístico de sobra. Andei alguns passos, revisei o incidente e conclui que só me vi livre de uma situação pior, que nem ouso ponderar, porque o trânsito de pessoas era mais ou menos intenso no local, porque fui alvo de uma repentina indulgência do nativo, ou talvez porque ele não estivesse armado, como é praxe nos filmes e na literatura em geral, em ocasiões do gênero.

Depois do incidente, a vontade de andar esmoreceu, junto com a ousadia inicial, um tanto ingênua, própria do conjunto das emoções da chegada, quando eu me sentia um pouco dono da cidade, um pioneiro retardatário e anacrônico, como no verso da música do U2:

New york like a Crhistmas Stree,

tonight this city belongs to me”.1

Aceitei, quase supersticioso, o que me pareceu uma mensagem de mau agouro, e voltei pro quarto. Adormeci embalado pelos sons da noite, que chegavam num progressivo enfraquecimento, diluídos pelo acolchoado das grossas cortinas, pelo sono que avançava seus maquinismos, misturados à música que brotava do rádio, de alguma emissora qualquer comprimida no dial em meio a dezenas de outras que eu vasculhara com o controle remoto, curioso e impressionado com a quantidade de emissoras que se acotovelavam no apertado espaço de sintonização do aparelho.










1 Nova York como uma árvore de Natal,

esta noite, esta cidade me pertence.



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