quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MEMÓRIAS DE VIAGEM (VI)


                                      VI – A PRIMEIRA TESE



                                      No hotel, muita confusão. O hall era uma zona de guerra: bagagens pra todo lado, uma multidão de turistas recém chegados e perdidos, procurando um rumo, um falatório desenfreado, sem começo nem fim, subia indecifrável até o teto. Os funcionários do hotel transitavam tranqüilos em meio ao caos, nada vendo além da monótona repetição do corriqueiro.
Depois das burocracias de praxe, de posse da chave do quarto, fui em direção aos elevadores. Esbocei um aceno com a cabeça em cumprimento a hóspedes americanos que estavam saindo festivamente. À direita, o bar do hotel estava agitado. Dentro do elevador, à medida em que subia, os barulhos foram se distanciando, até sobrar apenas os rangidos metálicos das engrenagens e espias. Uma freada brusca e me vi no sétimo andar.

                                      O corredor palidamente iluminado por lâmpadas penduradas nas paredes e os passos engolidos por um grosso carpete me deram a estranha sensação de estar no cenário de um filme policial ou de suspense. Felizmente não houve nenhum tiroteio ou emboscada. Meu quarto ficava no fim do corredor. Abri a porta, avancei um passo e respirei fundo, enquanto dava uma passada de olhos pelo lugar. Joguei as malas a um canto e caminhei com urgência até a janela. Ao puxar as cortinas, vi deflagrar-se a vida noturna do mundo lá fora: tráfego lento e escasso na Oitava Avenida; ruas secundárias que nela desembocavam, escuras e decerto perigosas; pessoas circulando por todos os lados; ao longe, a última linha de luzes sendo engolida pela escuridão, e esta invadida por uma grossa neblina que se alastrava vagarosa e pesadamente. Uma noite tipicamente londrina, dos tempos de Jack, o Estripador.

                                      Os ruídos de fora subiam, entravam pela janela e ficavam flutuando dentro do quarto ou batendo em meu peito. Alguns vinham de longe, sussurrando, carregados de segredos. Outros, lancinantes, me colocavam em estado de alerta. Fiquei parado em frente à janela um longo tempo, entorpecido, ou pelo cansaço da viagem, ou por alguma força hipnótica qualquer. Quando voltei a mim, despertado por uma sirene de bombeiros, tive a sensação de que o tempo havia parado.

Então vislumbrei a primeira tese sobre o medo da solidão: dela temos medo porque nos habituamos com a presença do Outro sempre à mão, servindo como anteparo ou espelho de nós mesmos. É uma necessidade psicológica, o Outro submetido à função de escora pra nossa vulnerabilidade, configurando o que chamamos de “vocação gregária do homem”.

Trazido de volta à realidade imediata, dei-me conta da necessidade urgente de um banho.

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