VI – A PRIMEIRA TESE
No hotel, muita confusão. O
hall era uma zona de guerra: bagagens pra todo lado, uma multidão de turistas
recém chegados e perdidos, procurando um rumo, um falatório desenfreado, sem
começo nem fim, subia indecifrável até o teto. Os funcionários do hotel
transitavam tranqüilos em meio ao caos, nada vendo além da monótona repetição
do corriqueiro.
Depois das burocracias de
praxe, de posse da chave do quarto, fui em direção aos elevadores. Esbocei um
aceno com a cabeça em cumprimento a hóspedes americanos que estavam saindo
festivamente. À direita, o bar do hotel estava agitado. Dentro do elevador, à
medida em que subia, os barulhos foram se distanciando, até sobrar apenas os
rangidos metálicos das engrenagens e espias. Uma freada brusca e me vi no
sétimo andar.
O corredor palidamente
iluminado por lâmpadas penduradas nas paredes e os passos engolidos por um
grosso carpete me deram a estranha sensação de estar no cenário de um filme
policial ou de suspense. Felizmente não houve nenhum tiroteio ou emboscada. Meu
quarto ficava no fim do corredor. Abri a porta, avancei um passo e respirei
fundo, enquanto dava uma passada de olhos pelo lugar. Joguei as malas a um
canto e caminhei com urgência até a janela. Ao puxar as cortinas, vi
deflagrar-se a vida noturna do mundo lá fora: tráfego lento e escasso na Oitava
Avenida; ruas secundárias que nela desembocavam, escuras e decerto perigosas;
pessoas circulando por todos os lados; ao longe, a última linha de luzes sendo engolida
pela escuridão, e esta invadida por uma grossa neblina que se alastrava vagarosa
e pesadamente. Uma noite tipicamente londrina, dos tempos de Jack, o Estripador.
Os ruídos de fora subiam, entravam
pela janela e ficavam flutuando dentro do quarto ou batendo em meu peito.
Alguns vinham de longe, sussurrando, carregados de segredos. Outros,
lancinantes, me colocavam em estado de alerta. Fiquei parado em frente à janela
um longo tempo, entorpecido, ou pelo cansaço da viagem, ou por alguma força
hipnótica qualquer. Quando voltei a mim, despertado por uma sirene de
bombeiros, tive a sensação de que o tempo havia parado.
Então
vislumbrei a primeira tese sobre o medo da solidão: dela temos medo porque nos
habituamos com a presença do Outro sempre à mão, servindo como anteparo ou
espelho de nós mesmos. É uma necessidade psicológica, o Outro submetido à
função de escora pra nossa vulnerabilidade, configurando o que chamamos de
“vocação gregária do homem”.
Trazido de volta
à realidade imediata, dei-me conta da necessidade urgente de um banho.
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