terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Memórias de viagem (III)





                  


     III – A VIDA A BORDO

Éramos quase quatrocentos a bordo. Uma pequena horda. O avião sofreu um bocado pra subir e deixou todos apreensivos durante longos segundos em que manteve uma queda-de-braço contra um empuxo que queria mantê-lo no chão.
O meu assento era próximo às asas, onde demorei até acostumar com o barulho das turbinas. Ao fundo, na área reservada aos fumantes, logo formou-se um pequeno nevoeiro, que foi engrossando aos poucos e terminou pairando sobre todos, ameaçador, à mercê das correntes de ar internas.
A população a bordo era uma miscelânea de raças e sotaques, predominando paulistas e cariocas. Ao meu lado ia um casal de paulistas, econômico nas palavras e discreto no trato. A propósito, quase todos viajavam acompanhados. Os solitários estavam em franca desvantagem. O ambiente foi se tornando amistoso, por conta do ócio e das expectativas próprias das viagens de passeio, que afluíam nas conversas, nas rodas dos fumantes, no namoro dos casais e, de forma mais silenciosa, na leitura diletante de alguns e na concentração dos que ouviam música nos fones de ouvido. A vida a bordo foi germinando aos poucos e logo as pessoas iam e vinham às voltas com gracejos, planos, conversações animadas, num ritmo de indolente descompromisso, mas que era reverenciado como um verdadeiro ritual.
Pelo alto-falante, o comandante informou sonolentos dados sobre o avião, altitude, velocidade, temperatura, e depois, com freqüência pouco regular, foi anunciado a rota que seguíamos, aos pedaços, pinçando aqui e ali algum lugar ou acidente geográfico, manipulando os dados ao seu arbítrio, de forma a nos manter escassamente orientados. Nossas vidas, mais precárias do que nunca, estavam em suas mãos e nas invisíveis maquinações do computador de bordo.
As horas avançaram lentamente, assim como os cenários em terra: montanhas num trecho de Minas, o cerrado em Goiás, o cansativo e monótono verde da Amazônia, durante um longo tempo, esparramando-se como um tapete. O verde sufocante só era interrompido pelo curso sinuoso dos rios e por clareiras que pareciam cicatrizes da mata.
A certa altura, um grupo de curiosos se formou junto a uma janela dos corredores. Todos intrigados diante do encontro de dois rios lá embaixo. Havia uma nítida diferença de cor das águas e muitos achavam que fosse o começo do Amazonas, quando o barrento rio Negro encontra o límpido Solimões, ou o contrário. Nossas amadoras noções geográficas pouco ajudaram e resolvemos celebrar a dúvida bebendo umas cervejas. 
Os contatos que fiz no curso do vôo foram rápidos e superficiais, como convém quando se está entre perfeitos estranhos. Os raros solitários ficavam restritos ao círculo da própria individualidade, limitados ao campo dos deveres mínimos de urbanidade impostos pelo convívio forçado, aos cumprimentos meramente formais e frases pré-fabricadas pra uso em sociedade. 
Em todo caso, bem melhor do que a barbárie.

2 comentários:

  1. Paulo, excelente relato. Descontraído e levemente cômico, como convém a relatos assim. Digo: àqueles que descrevem um convívio forçado de uma fauna variada.
    Tem algo do Veríssimo aí.
    Continue. Estou curioso.
    Un abraccio!

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  2. Julio,

    sio molto contento con el tuo comento, grazie...

    é bom saber que não estamos escrevendo apenas pra nós mesmos. Espero também poder apreciar novas postagens em teu blog. Não deixe esmorecer o talento já revelado em vários contos e poemas publicados.

    Um abraço,

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