quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

UM POUCO DE POESIA

RAINER MARIA RILKE

                         


"Quem, seu eu gritasse, me ouviria dentre as ordens
dos anjos? e mesmo que um me apertasse
de repente contra o coração: eu morreria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
E assim eu me reprimo e engulo o chamamento
dum soluçar escuro. Ai! de quem poderíamos
nós então valer-nos? Nem de anjos, nem de homens,
e os bichos perspicazes reparam já
que nós não estamos muito confiantes em casa
neste mundo explicado...
Oh! e a Noite, a Noite, quando o vento cheio de espaço dos mundos
nos desgasta a face... É mais leve aos amantes?
Ai! eles apenas se tapam um com o outro a sua sorte.
Pois não o sabes ainda? Arroja dos braços o vácuo
para os espaços que respiramos; talvez as aves
sintam o ar alargado com um vôo mais íntimo...

... mas porque estar-aqui é muito, e porque parece
que precisa de nós tudo o que há aqui, todo esse efêmero
que estranhamente nos interessa. A nós, os mais efêmeros. Uma vez
cada coisa, só uma vez. Uma vez e não mais. E nós também
uma vez. Nunca mais. Mas esta
uma vez ter sido, mesmo que só uma vez:
ter sido terrestre não parece revogável.

E assim nos acotovelamos e queremos cumpri=lo,
queremos contê-lo nas nossas mãos simples,
no olhar mais repleto e no coração sem fala.
queremos o devir - Para o dar a quem? De preferência
ficar com tudo para sempre... Ai, para a outra relação,
ai! o que é que para lá se leva? Não a arte de ver, aqui
lentamente aprendida, e nada do aqui acontecido. Nada.
Os sofrimentos, portanto. Portanto, antes de tudo, o que é grave e difícil,
portanto do amor a longa experiência, - portanto
apenas o Indízível. Mas mais tarde,
entre as estrelas, de que serve?...





EUGENIO MONTALE

                                 

"Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
árido, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbado.

depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde demais, e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo."

...
a enguia, tocha, açoite,
flecha de Amor na terra
que só as nossas ravinas ou os ressecados
regatos pirenaicos reconduzem
a paraísos de fecundação,
a verde alma que procura
a vida onde só
reina a aridez e a desolação,
a centelha que diz
tudo começa quando tudo parece
carbonizar-se, galho enterrado,
breve arco-íris, íris gêmea
daquela que teus cílios encastoam
e que fazes brilhar intacta entre os filhos
do homem, afundados no teu lamaçal, podes tu
não crê-la irma?

O TEMPO E OS TEMPOS
Não há um tempo único: são muitas as fitas
que deslizam paralelas
muitas vezes em sentido contrário e raramente
se entrecruzam. É quando se revela
a verdade pura que, descoberta,
é rapidamente suprimida por quem vigia
as engrenagens e os desvios. E se retomba
depois no tempo único. Mas naquele átimo
os poucos viventes puderam reconhecer-se
para dizerem-se adeus, não até logo.

4 comentários:

  1. Ótimos .... mas aguardo ansiosa p q vcê poste alguns dos teus poemas, de preferência os de influência "drumoniana", os meus preferidos, desde os idos de .... deixa pra lá.....

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  2. Consegui me conetar...
    Parabens pelo blog e sigo te acompanhando....
    Continue nos brindando com seus textos e até a publicação do livro.

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  3. Elis:
    minha amiga, minha irmã, obrigado pelo comentário e pelo apoio. Tomara que você esteja certa quanto à filiação do meu estilo de "poetar", pois o Drummond, como você bem sabe, é o meu poeta preferido.
    Um abraço.

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  4. Amiga Betinha:
    espero poder fazer jus à tua amizade, à disposição de me acompanhar no blog e, quem sabe, chegar um dia à publicação de um livro, como você sugere.

    Gracias,

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