terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Heidegger

               Aos interessados em filosofia e Heidegger, em especial:

              fascinante a leitura do pequeno volume intitulado Heidegger de G. Steiner, sobretudo como texto introdutório à obra do filósofo que dá título ao livro.  Digo isso com a experiência de quem já tentou avançar pela selva linguístico-filosófica de Ser e Tempo (Sein und Zeit) e terminou perdido. Steiner enfatiza que há duas correntes interpretativas da obra do filósofo da Floresta Negra: uma que o considera o maior do século XX, à altura de Platão, Aristóteles, Kant e poucos outros e até superior a todos eles, na medida em que propõe o retorno à questão essencial, da qual derivam todas as outras, mas que caiu no esquecimento praticamente desde o início, posto que poucos dela lembraram depois de Heráclito, e quando o fizeram foi de modo superficial e tangenciador: a questão do Ser; a outra corrente o considera um charlatão, um prestidigitador especializado em formular questões sem fundamento lógico, em amontoar neologismos que não levam a lugar nenhum.
               A apreciação crítica de Steiner convence o leitor acerca da genialidade de Heidegger e da urgência de retornar à leitura da sua obra e ao inerente esforço interpretativo. O homem, na qualidade de presença (Da-Sein), ser-aí, é o ente privilegiado para o acesso ao Ser, enquanto examinado na quotidianidade de suas vivências na mundanidade do mundo. O homem como manejador dos utensílios que lhe são colocados à mão, criações de um mundo que se afastou da con-vivência saúdavel com a natureza e, dominando-a, através dos instrumentos forjados pela técnica, a partir da lógica implacável que vem de Aristóteles (a natureza e o conhecimento dissecados e etiquetados em categorias) e passa por Descartes (o pensamento lógico como condição e caminho da razão). O homem como pastor do ser, na medida em que é o único ente dotado de razão discursiva (logos/leghein), de linguagem, a clareira onde poderá eclodir o Ser, mediado pelos pensadores e especialmente pelos poetas. Heidegger dedica suas últimas obras a um esforço interpretativo da obra dos grandes poetas, especialmente Hölderlin, considerando a poesia como o horizonte de possibilidade de acesso ao ser.
               Steiner esmiuça os pontos principais da obra de Heidegger e funciona como um saboroso aperitivo pra quem pretenda depois banquetear-se com a mesma, o extenso, intrincado, genial, revolucionário prato principal.


Nenhum comentário:

Postar um comentário