MONTANHA DE NOITE
Acenderemos fogos na montanha.
Lenhadores, a noite se aproxima
e astro nenhum trará nos escaninhos.
Trinta fogueiras hoje acenderemos.
Porque a tarde quebrou há pouco um vaso
de sangue no horizonte. E é mau agouro.
Juntos fiquemos ao redor do fogo
para que não habite em nós o espanto.
Esse fragor de catadupas lembra
um incansável galopar de potros
pela montanha. Enquanto sobe um outro
fragor dos nossos temerosos peitos.
Dizem que pela noite o êxtase negro
os pinheiros esquecem, e a um estranho
sinal secreto, sua multidão
move-se, vagarosa, na montanha.
A esmeralda da neve então adquire
riscando a treva um arabesco oblíquo.
Sobre o ossário da noite que se estende
representa um bordado de ossos, lívido.
Há um alude invisível que dos montes
desliza mas não chega ao vale inerme.
Há morcegos que vêm, de asas rugosas,
roçar o rosto do pastor que dorme.
Dizem que pelos ermos apertados
da serra próxima, andam junto à sombra
daninhos animais que o vale ignora
nascidos, como grenhas, da montanha.
Já me penetra o coração o frio
do cume ao lado. Penso: porventura
os mortos que deixaram por impuras
as cidades, escolhem o regaço
recôndito e ermo dos desfiladeiros
de escarpa azul que alba nenhuma banha
e, quando a noite adensa seus betumes
tal como um mar invadem a montanha.
Rachai troncos espessos e fragrantes,
pinheiros que dão chama abrasadora,
apertai bem o cerco da fogueira
porque há frio e angústia, lenhadores.
Nenhum comentário:
Postar um comentário