terça-feira, 21 de dezembro de 2010

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

                  



“Viver é muito perigoso”. Ainda que possa não ser uma das maiores lições de Grande Sertão: Veredas, a frase várias vezes repetida no livro resume, em sua concisão, muitas ressonâncias existenciais, religiosas, psicológicas, pra não falar da carga de presságio que o futuro só tratou de confirmar, a ponto de podermos afirmar que viver foi e é a cada dia mais perigoso.
No contexto do livro citado, o maior perigo ao qual a afirmação quer aludir é o da morte, pois o enredo pode ser resumido, grosso modo, como a narração da trajetória e peripécias de um grupo de jagunços em fuga constante das tropas do governo, por um sertão sem começo nem fim. Logo em seguida, pode-se admitir outro perigo evidente, o de confrontar-se o narrador com o diabo e passar pela tentação de vender-lhe a alma, se é que isso seja possível ou se é que o diabo exista, as duas interrogações mais penetrantes que perpassam o texto, do início ao fim, como tema recorrente ou idéia fixa do autor-narrador. O momento culminante da narrativa, o mais evidente tour de force do autor, é a cena do julgamento do chefe de um dos grupos de jagunços, presidido pelo chefe maior e acompanhado por todo o bando, a céu aberto.
Terminada a leitura do livro, resta uma decepção no leitor, que é a de não ter ocorrido o encontro, que haveria de ser fatal para uma das partes, entre o narrador, o melhor atirador dos sertões, e Hermógenes, o personagem que corporifica o mal, a encarnação do demo e vai atraindo contra si toda a antipatia do leitor.
Segundo Paulo Francis, não existem, na história universal da literatura, cinqüenta autores ou obras com a genialidade de Guimarães Rosa e Grande Sertão: Veredas. O traço inconfundível do texto, que o torna peça rara, talvez única na literatura mundial é que, em mais de quinhentas páginas de letra miúda (Editora Nova Fronteira, 1994, 29ª edição) será difícil encontrar uma frase sequer que não contenha um neologismo, uma transgressão gramatical, uma recolha de linguajar sertanejo transcrita num formato erudito (lembrando Shakespeare), um virar do avesso, enfim, na forma usual de escrever.
Uma narrativa literariamente revolucionária, produzida por um autor de criatividade genial, falecido três dias depois de eleito, aclamado e de ter discursado como membro da Academia Brasileira de Letras.



Nenhum comentário:

Postar um comentário