sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

o mar e as sereias

Asian Woman Posing In Sea



               A proximidade do mar, pra quem vive longe dele corriqueiramente, remexe no fundo da alma uma variedade de sensações prazeirosas. A brisa marinha, o cheiro da maresia, o contato refrescante do corpo com a água salgada, o mergulho e suas possibilidades de sufocação e espanto, tudo nos transporta e remete a um universo estranho, mas, ao mesmo tempo, decididamente próximo, a lembranças nem conhecidas ou simplesmente esquecidas no fundo da gaveta que, subitamente, espocam dentro de nós, como se ali estivessem desde sempre. A visão do mar resgata a memória genética incorporada ao nosso sangue desde o início das eras e transmitida de geração em geração no lento curso dos milênios, comprovando que a vida começou na água. O apelo do mar atua sobre os homens com uma força de atração irresistível, descrita adequadamente por Melville no primeiro capítulo de Moby Dick.
               Ver o mar não é simplesmente um ato a mais a quebrar a cotidianidade, por muitos adiado ou nunca realizado durante toda a vida, é um compromisso existencial conosco mesmos, um retorno obrigatório, quanto mais habitual melhor, a uma instância do ser que evoca nosso princípio e talvez nossa finitude, se estivermos dispostos a encarar sob esse prisma, que seria existencialmente autêntico, embora para muitos deprimente ou demasiado pessimista.
              O convite do mar se oferece a todos, tão democrático quanto sedutor, tão sedutor quanto o canto das sereias que o povoam. Aceder a ele nos conduzirá por um caminho onde estarão misturados o profano e o sagrado, e possivelmente sairemos da experiência enriquecidos e fortalecidos. 
             
Girl Floating At The Dead Sea

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