"...Em Berlim, onde permaneceu até 30 de março de 1841, Marx estudou direito, atendendo ao pedido do pai, porém na verdade dedicava-se mais à filosofia, que era, nas universidades alemãs da época, o assunto de maior interesse intelectual, e fascinava Marx, que tinha uma queda natural para o assunto. Agora Marx se fecha em seu quarto para pensar e estudar, 'repele as amizades', como ele próprio escreve, 'despreza a natureza, a arte e a sociedade, passa muitas noites acordado, luta em muitas batalhas, sofre muitas agitações provocadas por causas externas e internas', lê desbragadamente, planeja trabalhos gigantescos, escreve poesia, filosofia, faz traduções."
"...seu isolamento social já era completo - ele nunca mais estimularia nenhuma amizade senão aquelas que condiziam com seus interesses intelectuais; e de tanto trabalhar sua saúde fora abalada. Enviado para o campo para recuperar-se, lera toda a obra de Hegel e mais a de seus discípulos. Já começara a transformar-se no grande rabino secular de sua época... Karl Marx, também um professor na tradição judaica, porém totalmente desvinculado do sistema judaico e tendo todo o pensamento ocidental à sua disposição, viria a desempenhar um papel de liderança sem precedentes no mundo moderno."
"... quando Marx se formou, Bauer já havia começado a ter problemas, devido a suas atividades anti-religiosas e pró-constitucionais; e perdeu sua cátedra na primavera seguinte. Assim, a possibilidade de que o mais talentoso filósofo da nova geração na Alemanha - a respeito do qual alguém já dissera que assim que pisasse numa sala de aula, todos os olhos da Alemanha estariam voltados para ele -, a possibilidade de que o jovem dr. Marx seguisse o exemplo de seus grandes predecessores, Kant, Fichte e Hegel, e expusesse seu sistema de um púlpito acadêmico, foi destruída para sempre."
"... Àqueles que falavam de Justiça, Marx e Engels replicavam: 'Justiça para quem? No capitalismo, são os proletários que são presos com mais frequência e os que recebem os castigos mais severos; ao mesmo tempo, como passam fome quando estão desempregados, são eles que são levados a cometer a maioria dos crimes'. Àqueles que falam de Liberdade, eles replicavam: 'Liberdade para quem? Jamais será possível libertar o trabalhador sem restringir a liberdade do proprietário'. Àqueles que falavam em Vida Familiar e Amor - que supostamente estariam sendo destruídos pelo comunismo - eles respondiam que essas coisas, na sociedade da época, só existiam para a burguesia, já que a família proletária fora desmembrada com a utilização de mulheres e menores nas fábricas, levando jovens a fazer amor nos moinhos e minas ou vender seus corpos quando os moinhos e minas se fechavam. Àqueles que falavam do Bem e da Verdade, Marx e Engels retrucavam que jamais saberíamos o que essas palavras queriam dizer até que surgissem moralistas e filósofos que não estivessem mais comprometidos com uma sociedade baseada na exploração, e portanto não tivessem nenhum interesse pessoal na perpetuação da opressão.
Assim, o Manifesto comunista foi a expressão do protesto, talvez o mais candente que já se viu em letra de forma, contra as versões de todos esses belos ideais que haviam se entronizado durante a era burguesa..."
"... como era incapaz de fazer o que quer que fosse de modo superficial, para escrever um desses artigos (de jornal) fazia mais leituras - tanto de obras de fôlego, como histórias da Espanha e da Índia, quanto de correspondências diplomáticas e relatórios parlamentares - do que muito autor respeitável costuma fazer para escrever um livro inteiro. Queixava-se a Engels, com toda a razão, de que dava a essas publicações em termos de trabalho muito mais do que elas lhe davam em dinheiro."
Extraído de Wilson, E., Rumo à estação Finlândia, São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1993.
Nenhum comentário:
Postar um comentário