quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A ORIGEM DO HOMEM (Antropologia Amadora Elementar)


Um dos mais antigos mistérios da humanidade é o da sua origem. Existem, basicamente, duas hipóteses explicativas principais: a bíblica, segundo a qual o homem foi criado do barro, ao qual Deus “animou” com seu sopro divino; e a evolutiva, pela qual o homem descende do macaco, de alguma espécie de primata ancestral e pré-histórico, uma ramificação que teria evoluído de forma diversa das demais, a partir de um tronco comum que incluiria todas as espécies de macacos remanescentes nos dias de hoje. A hipótese bíblica é tida como um relato metafórico, indireto ou poético e a referência ao aspecto estético, à suposta beleza, ainda que simplória, do texto, acaba sendo um reducionismo de vistas, uma limitação empobrecedora, que nos desvia de uma indagação mais séria. Talvez seja um desígnio da divindade, no sentido de uma possível obstrução do mistério à instância humana, sendo a descrição mito-poética, possivelmente, o único meio acessível, dentre os recursos da linguagem, para aproximar do homem o entendimento sobre os mistérios da criação. Uma investigação dos caminhos da hipótese científica da evolução parece mais fértil, por estar menos ou quase nada envolvida pela trama vaga e multiforme da metáfora. 
Em algum momento da história ou da pré-história, o animal que se projetava como o iminente hominídeo - o avô do homo sapiens - desce das árvores e resolve aventurar-se mais tempo pelo chão, até fazer dele o seu domínio, vindo a tornar-se o que se batizou como homo erectus. Quem poderá saber o que motivou tal mudança? A carência de frutos, a extinção das florestas em grandes áreas do seu habitat? Talvez tenha sido um ato basicamente voluntário, uma decisão intuitiva ou precariamente racional do homo, o que bem poderia ser um sinal do desenvolvimento intelectual já em curso. O chão pode ter-lhe projetado a noção - ainda que instintiva - de ser mais apropriado às novas ambições de ampliar a liberdade e a desenvoltura. Insistindo nisso, em pouco tempo desacostumou-se da vida aéreo-arbórea, da habilidade de transitar com rapidez de galho em galho no nível superior das florestas, reduto ideal pra fugir aos predadores. A vida no chão, além de torná-lo desajeitado no trato com a escalada das árvores, em que até então era perito, obrigou-o também a adotar gradativamente a postura ereta, imprescindível para alcançar os frutos nos galhos mais acessíveis - possivelmente a primeira base alimentar - e mais apropriada para vasculhar o horizonte. A coluna vertebral verticalizou-se. As patas dianteiras transformaram-se em mãos, aperfeiçoando recursos tácteis e prêenseis. As pernas traseiras fortaleceram-se, avolumaram-se, pois passaram a carregar um fardo mais pesado. E assim por diante.  A certa altura, as florestas e savanas estavam povoadas de hominídeos, um estágio de transição, uma ponte entre o animal irracional e o homem.
Quanto tempo terá durado esse processo? Provavelmente milênios. A natureza não dá saltos e os processos evolutivos que foram desvendados até agora demonstram que, em verdade, ela anda muito devagar, a passo de tartaruga. A evolução das espécies se arrasta numa dança medida em milhares ou milhões de anos, cabendo lembrar que a teoria do Big Bang supõe que o universo tenha surgido entre 10 e 20 bilhões de anos atrás e o Sol tenha cerca de 5 bilhões de anos. Seja como for, é muito provável que numa fase certamente longa da evolução, durante o intervalo de tempo entre o momento em que o macaco ganha o chão definitivamente (e ali passa a maior parte do tempo, utilizando a árvore como um eventual e cada vez menos freqüente refúgio na fuga dos predadores ou para a coleta de alimento) e aquele em que surge como um hominídeo relativamente avançado intelectual ou materialmente, já aparelhado com o mais rudimentar artefato de defesa contra os outros animais, deverá ter experimentado a mais grave situação de perigo à sobrevivência da espécie. Foi a prova de fogo, o teste de resistência mais delicado e perigoso, senão o único momento em que a raça humana efetivamente esteve ameaçada de extinção, possibilidade que se renovou no século XX, com a ameaça do apocalipse atômico. Enquanto restrito à forma de vida aérea, protegido pelas possibilidades de fuga, defesa e também pela abundância de alimentos proporcionados pela árvore, nosso ancestral esteve relativamente seguro. Prova disso são os macacos que ainda sobrevivem e que não teriam chegado até aqui se essa forma de vida não fosse minimamente aparelhada à disputa e manutenção de um lugar no concerto dos ecossistemas. Porém, quando começa a viver no chão, ainda que mais evoluído intelectualmente, deve ter passado um longo tempo sem condições de projetar e fabricar o primeiro artefato de caça ou defesa. Até esse momento, viveu uma fase de extrema fragilidade, quando devia ser presa fácil dos predadores. Como terá sobrevivido até a ocasião em que se deu conta de que sua força redobrava quando se unia aos semelhantes ou até vislumbrar que poderia ter uma arma a partir de uma lasca de pedra ou madeira encaixada em um bastão qualquer, e assim potencializou suas possibilidades de caçar ou defender-se, constitui mais um enigma.
Por outro lado, quando o hominídeo, a partir da evolução do cérebro, que se dá no sentido de um aumento da capacidade craniana, usa sua “inteligência” cada vez maior para fabricar artefatos, inaugura um domínio implacável sobre as outras espécies, muitas vezes fatal. Torna-se o senhor dos animais e da natureza. Domestica algumas espécies, enfrenta com superioridade as indóceis e insubmissas, enxotando ou exterminando, e assim prossegue até os nossos dias, em que a industrialização incontrolável - estágio universal e radicalmente avançado do homo faber - propaga um domínio completo do homem sobre a Natureza.

Um comentário:

  1. Parabéns, Paulo, muito bem escrito. Sinto no amigo uma veia ensaística aguçada que perpassa pelo erudição, inevitável para enfrentar um tema assim. Penso que devias considerar com carinho a possiblidade de investir nessa linha.
    Um abraço
    Julio

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