quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

CIÊNCIA E FÉ

São muitos os mistérios que desafiam as ciências e mais ainda os que povoam o imaginário das mentes não-científicas. Com os seus arsenais lógicos e metodológicos, armazenados desde os primórdios da matemática até a consolidação do método científico - com Galileu e Newton -, fundado na observação empírica dos fenômenos e na dedução lógica das leis que os explicam, as ciências levaram o homem a acumular um conhecimento impressionante em todas as áreas, do micro ao macro-universo, das partículas subatômicas às galáxias.
As mentes não-científicas, por sua vez, costumam se deixar levar pelos terrenos pantanosos e movediços da superstição, da mera opinião, dos mitos e lendas, onde a razão acaba chafurdando.
Adorno e Horkheimer diagnosticaram com espanto o que seja possivelmente o maior paradoxo do mundo moderno: nunca a ciência e o conhecimento avançaram tanto, supostamente promovendo um igual recuo das superstições em geral, mas, ao mesmo tempo, nunca antes o homem havia se deparado com atos de barbárie tão indizíveis como os cometidos no século XX, pelo próprio homem. A época humana mais iluminada pela razão foi também a mais desumana de todos os tempos. Os autores mencionados tentam explicar o que aconteceu, numa obra de alto refinamento intelectual e erudição, creio que ao alcance interpretativo de muito poucos (Dialética do Esclarecimento).
O equívoco deve estar na suposição de que o universo mítico tenha recuado. Ao lado do mundo criado pelo avanço científico continua a persistir outro de caráter mágico, sobrenatural, pois a alma humana é devorada por fomes e sedes que o racional não é capaz de satisfazer. O homem é um ser pequeno demais diante do fardo imenso da existência, da eventual constatação do seu absurdo, do torvelinho caótico das coisas do mundo. As respostas das ciências são limitadas e contingentes e, quando o homem tem de confrontar-se com os grandes mistérios que rondam a vida e a morte, toda ciência reunida é vã como um sopro, nada além de um deserto para um caminhante sedento. Nessa hora, o homem grita seu lamento contra a mudez implacável das estrelas e, esmagado pelo silêncio do céu, revolta-se, enlouquece, prostra-se sem saber o que fazer, reza, implora, subjuga os vícios de uma vida inteira, sente-se a criatura mais miserável de todas, abandonada pelos deuses da ciência e da fé.
Não creio que o homem encontre na ciência amparo espiritual. Ela é fria, amoral, anti-humana, a despeito de ser obra humana. A imagem caricata do cientista maluco que, se preciso, explodiria o mundo em nome de alguma descoberta que o tornasse famoso, tem um fundo de assustadora verdade.
Todo saber é poder. Bacon resumiu nesse axioma uma verdade que passou a reger um mundo cada vez mais racional e científico. Mas há um saber não-racional, governado por regras que fogem aos limites da lógica, e a maioria das pessoas vive nesse âmbito. Muito do fracasso das experiências políticas totalitárias que tivemos até hoje, se deve ao fato de terem imposto a proibição das práticas religiosas. O homem é criatura que não suporta viver sem esperança ou fé, sem poder apoiar suas esperanças em algo sobrenatural.
O espírito é que sustenta o corpo, e não o contrário, e o seu alimento é de natureza espiritual, não pode ser obtido pelo recurso às ciências. O que cumpriria descobrir é de qual fonte vem o alimento que liberta às vezes o lobo que dormita no íntimo do homem.

4 comentários:

  1. Ufa!!! Mais um texto espetacular ... e mais um tema delicado e profundo (polêmico)!!! Como comentá-lo (confrontá-lo)? Preciso de tempo ...

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  2. Grandes questionamentos! Parabéns por levantar as questões. Melhor que respostas, muitas vezes são boas perguntas e o teu texto está mais para isso: para um boa pergunta.
    Gostaria de pôr a minha colher nesse angu.
    Não creio que haja mais oposição entre ciência e fé. Já deu para ficar claro que as duas tratam de questões diferentes. A ciência experimentou seus limites e a fé volta a adquirir foros de legitimidade. Na medida em que a ciência não responde as grandes questões do homem, tais como: o que é a vida? O que somos nós? Há vida além da nossa? Qual o sentido do ser? A fé nos ajuda a viver com menos medo nesse mundo estranho, nesse mundo do lado de lá do facho de luz que a ciência ousar nos trazer.
    Primeiro o homem creu que a razão pudesse lhe dar todas as respostas e incerto e inseguro lançou-se a toda sorte de especulação. Depois o método científico ensinou-lhe que precisava ser mais modesto, experimentar e induzir as leis que nos governam. Obtivemos muitos avanços com isso mas ainda há muitas zonas escuras que os instrumentais da ciência ainda não devassaram, e quiçá jamais devassarão. Creio até que a inteligência como a conhecemos nós dê uma imagem particular do universo, que só uma outra forma de apreender, quem sabe, pode nos proporcionar uma visão nova e novas descobertas sobre os mesmos fenômenos. Enfim: o universo é tão incomensurável que o pequeno âmbito de luz em que vivemos - como uma vela na escuridão da noite - nos permite ter um pouco mais de conforto, mas intelectualmente não estamos muito melhores que os antigos que acreditavam em mitos para explicar o universo. Alargamos um pouco a perspectiva, mas para além, os monstros não deixaram de existir.
    O que nos remete a constatação: o homem, essencialmente, ainda o mesmo e o morticínio do Século XX prova isso. E foi maior porque a tecnologia da morte também acompanhou a ciência.
    Um abraço e desculpe se me estendi demais.

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  3. Caro Julio,
    muito inspirada a tua avaliação. Creio que é isso mesmo. A ciência vai tateando o terreno com seus instrumentos, de vez em quando consegue algum avanço, descobre algum mecanismo ou alavanca ocultos que regem algum domínio do real, outras vezes novas descobertas desmentem outras anteriores e assim vem sendo, na base da tentativa e erro, testando hipóteses, fazendo experiências e verificando minuciosamente os resultados obtidos. Porém, os grandes mistérios a ciência não desvendou e talvez nunca o fará. Continuam no escuro, desafiando-nos com seus monstros.
    Um abraço.

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  4. Quando li o título do texto senti um arrepio. Tchê, o Paulo enlouqueceu, pensei. Recém abraçou a (brilhante) ideia de publicar seus textos e já jogou pedra num vespeiro desses! Ciência X Fé? Seria o fim. Seria, sim, não fosse a prudência manifesta na escrita, prudência essa característica indelével de um bom escritor. Texto excelente, embora não compartilhe na íntegra da bandeira por você fincada nesse instável terreno. A ciência [fria e inescrupulosa], disso não discordo, não pode ser o amparo absoluto para o caminhar humano; por outro giro, a religião não é menos perigosa, pois edificada sobre algo que não é palpável, não é visto, e cada um a dita do modo que as suas conveniências determinarem. Deus está do lado do mais forte. À margem de todo esse embate, alguém caminha esquecido: o homem passado, o homem presente e o homem futuro. Razão de ser de tudo isso. Penso, na minha humilde e insignificante visão, que esse apego alucinado à ciência e à religião, ambas caixas de Pandora, só tem vez de forma tão forte porque o homem não se sente capaz de lidar com a sua própria existência, com a sua própria razão de ser. Então, irresignado, vale-se da ciência para os propósitos mais pulhos e da religião (fé-cega)para justificá-los. Afinal, por qual motivo tanta procura por algo que vai além das forças humanas? Por que não aceitar a vida como aí posta e cultuar o homem em si, sem ter que se agarrar em algo que escapa do alcance dos olhos e das mãos? Por que essa necessidade de acreditar na ideia de que 'alguém superior" (pai, chefe, autoridade) nos vigia, nos pune e nos protege, e não aceitar simplesmente a ideia de que devemos ser bons pelo bem da nossa própria existência? Já sei: porque não condiz com a natureza humana... Mas, afinal, qual é a natureza humana? Silêncio. Enquanto procuramos a resposta, ciência e fé nos servem de muleta...

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