São muitos os mistérios que desafiam as ciências e mais ainda os que povoam o imaginário das mentes não-científicas. Com os seus arsenais lógicos e metodológicos, armazenados desde os primórdios da matemática até a consolidação do método científico - com Galileu e Newton -, fundado na observação empírica dos fenômenos e na dedução lógica das leis que os explicam, as ciências levaram o homem a acumular um conhecimento impressionante em todas as áreas, do micro ao macro-universo, das partículas subatômicas às galáxias.
As mentes não-científicas, por sua vez, costumam se deixar levar pelos terrenos pantanosos e movediços da superstição, da mera opinião, dos mitos e lendas, onde a razão acaba chafurdando.
Adorno e Horkheimer diagnosticaram com espanto o que seja possivelmente o maior paradoxo do mundo moderno: nunca a ciência e o conhecimento avançaram tanto, supostamente promovendo um igual recuo das superstições em geral, mas, ao mesmo tempo, nunca antes o homem havia se deparado com atos de barbárie tão indizíveis como os cometidos no século XX, pelo próprio homem. A época humana mais iluminada pela razão foi também a mais desumana de todos os tempos. Os autores mencionados tentam explicar o que aconteceu, numa obra de alto refinamento intelectual e erudição, creio que ao alcance interpretativo de muito poucos (Dialética do Esclarecimento).
O equívoco deve estar na suposição de que o universo mítico tenha recuado. Ao lado do mundo criado pelo avanço científico continua a persistir outro de caráter mágico, sobrenatural, pois a alma humana é devorada por fomes e sedes que o racional não é capaz de satisfazer. O homem é um ser pequeno demais diante do fardo imenso da existência, da eventual constatação do seu absurdo, do torvelinho caótico das coisas do mundo. As respostas das ciências são limitadas e contingentes e, quando o homem tem de confrontar-se com os grandes mistérios que rondam a vida e a morte, toda ciência reunida é vã como um sopro, nada além de um deserto para um caminhante sedento. Nessa hora, o homem grita seu lamento contra a mudez implacável das estrelas e, esmagado pelo silêncio do céu, revolta-se, enlouquece, prostra-se sem saber o que fazer, reza, implora, subjuga os vícios de uma vida inteira, sente-se a criatura mais miserável de todas, abandonada pelos deuses da ciência e da fé.
Não creio que o homem encontre na ciência amparo espiritual. Ela é fria, amoral, anti-humana, a despeito de ser obra humana. A imagem caricata do cientista maluco que, se preciso, explodiria o mundo em nome de alguma descoberta que o tornasse famoso, tem um fundo de assustadora verdade.
Todo saber é poder. Bacon resumiu nesse axioma uma verdade que passou a reger um mundo cada vez mais racional e científico. Mas há um saber não-racional, governado por regras que fogem aos limites da lógica, e a maioria das pessoas vive nesse âmbito. Muito do fracasso das experiências políticas totalitárias que tivemos até hoje, se deve ao fato de terem imposto a proibição das práticas religiosas. O homem é criatura que não suporta viver sem esperança ou fé, sem poder apoiar suas esperanças em algo sobrenatural.
O espírito é que sustenta o corpo, e não o contrário, e o seu alimento é de natureza espiritual, não pode ser obtido pelo recurso às ciências. O que cumpriria descobrir é de qual fonte vem o alimento que liberta às vezes o lobo que dormita no íntimo do homem.
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