segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A TELEVISÃO


 

A televisão exerce um “poder hipnotizante” (o uso das aspas, no caso, quer acentuar a verdade literal da expressão e não qualquer sentido figurado).

Ligamos o aparelho, sentamos ou deitamos no sofá e a magia se faz: uma embriaguez melíflua vai esparramar-se sobre nós, as horas passarão sem notarmos, o mundo e a vida lá fora seguirão girando em seu curso impetuoso e trepidante, pleno de realidades, enquanto estaremos arrebatados por um outro tipo de realidade, que desfila pela tela, esse substrato de vidro ou cristal impregnado de uma infinidade de pontinhos de luz que são como poros eletrônicos sugando nossa energia (ou nosso cansaço). "...fact is fiction and T.V. is reality..." (Paul ‘Bono Vox’ Hewson). Os enredos de filmes tais como “Poltergeist” e “O chamado” são metáforas coerentes como ilustração dessa troca de energias ou fluidos que acontece entre o tubo de imagens e um ego receptor.

Feita a catarse ou o jogo de ilusionismo, chega uma hora em que, afinal, levantaremos, trôpegos de tanta imobilidade acumulada e por não termos feito nada durante tanto tempo, e será inevitável a sensação de tempo perdido.

 

Seja dito “en passant” que a TV não é a única vilã hoje em dia. Há um grande potencial de hipnotismo-alienante em muitas outras engenhocas do mundo moderno, a começar pelos computadores e seus derivados. A TV talvez tenha sido o começo de tudo, a mãe ou a avó bandida que gerou muitos rebentos não menos criminosos.

Não se credite nosso hipnotismo frente à telinha à qualidade da programação. Concessão seja feita à TV a cabo, aonde, nem que seja às custas de uma oferta mais farta de canais e programas, alguma qualidade haverá de ter sido acrescentada. O postulado marxista que prevê a obtenção da qualidade mediante o incremento da quantidade parece aplicar-se ao caso. Se não é a presença de qualidade que nos prende à tela, deve ser então a ausência dela. Do ponto de vista da psicologia das massas, não é de subestimar a eficácia do apelo de uma programação fútil e ociosa sobre as pessoas, se lembrarmos que, contrariamente à opinião de Descartes, segundo a qual “o bom senso seria a coisa do mundo melhor partilhada entre os homens”, muitos entendem que a estupidez ocupa esse lugar, não só por bem distribuída entre os homens, como por infinita. Dificilmente seria refutável a tese de que não seria esta última, muito mais do que o primeiro, que explicaria os altos índices de audiência televisiva.

Os que buscam qualidade na TV vão gastar o controle remoto e eventualmente encontrarão alguma coisa. Os aficcionados por esportes e notícias terão sua ração diária garantida, assim como os fãs de novelas.  Não podemos deixar de notar, contudo, que esses gêneros não escapam, jamais, a um sintoma comum que lhes contamina e solapa desde as bases: a entediante repetição diuturna das mesmas histórias, enredos, fatos, factóides, etc., com duas pequenas exceções: nos esportes, a ocorrência de atletas excepcionais que têm levado o homem e as modalidades esportivas aos seus limites físicos extremos e, no caso dos noticiários, eventos bissextos, a exemplo do 11 de setembro ou das tsunamis no oceano índico, que deixam repórteres e telespectadores em polvorosa por alguns dias, até a poeira baixar e a rotina voltar a banhar as coisas do mundo com sua luz matinal de sempre, “trazendo leite, jornais e calma”*.

Talvez o efeito hipnótico seja fruto mais de nosso cansaço ao fim de um dia de trabalho, do que outra coisa. Ademais, a televisão pode ser uma aliada, ao menos como recurso paliativo, no combate a um dos grandes males que afligem o homem: a solidão.  A TV ligada tende a funcionar como um espantalho desse terrível fantasma, autorizando a provisória inversão de um conhecido provérbio: “antes mal acompanhado do que só.”


 

*Carlos Drummond de Andrade


 


 

Paulo C. Saccomori 


 


 

9 comentários:

  1. Parabéns pela iniciativa do blog! Como venho dizendo há tempos, já é passada a hora de você começar a "por para fora" todo o conhecimento acumulado. Vamos cultuar a arte, o bom, o que é de essência, e assim é o teu trabalho. Vida longa ao blog! Sucesso!

    ResponderExcluir
  2. Já ia esquecendo de comentar. Excelente o texto! Não esperaria nada diferente...
    Penso também: não seria o apego à televisão uma forma de cultuar nossa própria mediocridade? Afinal, se tudo o que faz sucesso na telinha (janela do mundo?) é valorizado, é cultuado, procurar na tv nossa própria miséria é a melhor forma de autovalorização. Se a tv dita o ignorante como belo, e sendo eu ignorante, logo, serei belo. Prova disso é o insucesso de programas realmente culturais, na inversa proporção dos exploradores da miséria, da violência, da ignorância... Na esteira da ideia do teu texto, veio à memória a música do Rappa: "faltou luz mas era dia... e fez da tv um espelho refletindo o que a gente esquecia...".

    ResponderExcluir
  3. Agradeço a você, Rodrigo, pela força e espero, sem falsa modéstia, poder corresponder, um tanto que seja, à expectativa que o teu comentário afiança.
    (aguarde meu comentário sobre a tua apreciação)

    ResponderExcluir
  4. GOSTEI DOS TEXTOS. ME FAZEM REFLETIR.

    ResponderExcluir
  5. Parabéns, Paulo pelo texto. Gostei. Estás revelando a tua sanha de ensaísta. É um bom começo. Se não para nada, podemos sempre pensar que estamos apenas nos aquecendo. O jogo pra valer ainda não começou. Cultivamos esta expectativa. Modesta para a garantia do futuro. Não se começa de cima. De baixo e para cima, aos pouquinhos, por que é aos bocados que se conquista o mundo.
    Parabéns pela iniciativa.

    ResponderExcluir
  6. A propósito agora do tema tratado, considero que a TV tenha esse efeito narcotizante sobre nós porque na verdade estamos esgotados do trabalho. Chupados como uma uva passa, como tu mesmo gostas de mencionar, e a TV vem como uma prostituta nos adular, nos acarinhar com seus encantos e nós, momentaneamente abestalhados pelos cansaço, nos deixamos levar. De outra banda, a verdade é que a vida em comunidade há muito deixou de existir nos grandes centros urbanos. A vida em apartamentos são verdadeiras gaiolas onde somos enjaulados para produzir. E nesse sentido, viver em uma casa oferece maiores possibilidades pois somos identificados quando colocamos a cara para fora e não temos como evitar esse contato com qualquer pessoa que passa na rua. O que, se num primeiro momento pode nos soar como perda de privacidade, por outro nos dá a possibilidade daquela espécie de interação que já não temos mais nos apartamentos. Então só o que nos resta é esse buraco por onde nos chega a verdade esterilizada, insipida e sem cheiro, da vida: a TV. Ela cumpre o seu papel - evitar que enlouqueçamos. Aliás, a vida em apartamentos só se tornou suportável por causa dela. Se não já pensou o que seria de nós?
    É um excelente tema para um estudo sociológico.
    Un abraccio!

    ResponderExcluir
  7. Amigo Rodrigo,
    não sei o que possa acrescentar ao teu comentário, que me parece filosoficamente inspirado, uma bela contribuição ao texto. Ele me fez lembrar que o objetivo dos meios de comunicação de massa, como em qualquer empresa capitalista, é o lucro, e este aumenta na razão direta em que aumenta a audiência. Além disso, a televisão é uma via de duplo sentido, ela não só (de)forma valores e opiniões, como incorpora na sua programação a vida real. Assim, os programas medíocres podem ser o reflexo de uma sociedade igualmente medíocre, formando um círculo vicioso que se alimenta de si mesmo: a mediocridade do público exige programação nesse mesmo nível para garantia de audiência, e esta, por sua vez, garantirá nova safra de programas medíocres, e assim por diante.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  8. Amigo Julio,
    agradeço pelo encorajamento.
    O teu comentário sobre a televisão realmente abre ensejo até a um ensaio sociológico de porte e confesso que não sei se existe algum sobre o tema, pois a rigor não pesquisei. O meu texto não vai além de mera expressão de idéias gerais, com muito de diletantismo e pouco de ensaísmo sério ou acadêmico.
    Vamos nos exercitando sempre (nullum die sine linea) e quem sabe um dia entramos em campo a sério e de repente até marcamos um gol.
    Um abraço.

    ResponderExcluir